L. Wesley's COMMUNITÀS

Blog pessoal dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

Minha foto
Nome:
Local: Atlanta, GA, United States

Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Ungido, Não-Ungido

*
Já experimentei no Brasil o absurdo da caracterização de “não-ungido”, a explícita abordagem de que eu não estou sintonizado com o mover de Deus neste tempo, o inconcebível conceito de que não navego no Espírito, o impensável daquilo que o pessoal considera rejeitável em mim por eu ser ou tradicional, ou carismático, ou progressista, ou conservador, ou pentecostal, ou liberal -- dependendo de quem faz a avaliação, é claro! --, e a aventura da rejeição por não me alinhar aos trejeitos de quem é "devidamente ungido".

Nisto reside um bloqueio que tenho tido nos últimos anos nesta coisa de pregar em igrejas locais no Brasil. Há anos venho percebendo uma crescente onda de estereótipos nos quais eu, definitivamente, não me encaixo: não fiz Encontro com Deus, não estou na “visão”, não falo em línguas durante a pregação, não faço apelação emocional, não manipulo o anseio sincero das pessoas pelo surpreendente, não tento satisfazer a volúpia daqueles que nada querem senão consumir a fé de forma extraordinária, espiritualizante, extremamente individualista e marcadamente alienante.

Além disso, não visto capas de anjo e nem aceito significados correntes do que seja ser um “profeta”. Não considero que minhas mãos sejam particularmente miraculosas. Não tenho e não prego sob um exacerbado encantamento pelo místico, não me entendo como convergente-densidade-ambulante dos poderes e dos saberes divinos, nem dos milagres de Deus. Não derrubo pessoas, não me porto como animador de auditório, nem muito menos como Chacrinha da fé evangélica. Me debruço na Palavra, isso sim, mas não viajo em analogias irrelevantes, alienadoras e descontextualizadas.

Quando prego, faço perguntas aos céus, à bíblia, às pessoas, ao tempo e à conjuntura, muito mais do que ofereço respostas. Faço estudo profundo não somente do texto e do contexto do texto, mas também dos contextos sócio-econômicos, culturais, espirituais e emocionais que rodeiam e afetam as pessoas, particularmente aos ouvintes. Quando prego, não entendo do céu mais do que entendo da terra, mas não paro de pensar na outra vida para não começar a falhar nesta, muito menos na pregação. Afinal, "quem almeja o céu, terá a terra como acréscimo; quem almeja a terra, não terá nem uma nem outra" (C.S. Lewis).

Por causa disso tudo, pode ser mesmo que eu não seja uma espécie “ungida”. Aliás, desejo não sê-lo se para isso tiver que deixar de ser gente para me tornar pregador medíocre. Eu disse medíocre, não simples. Amo os pregadores simples. A singeleza e a simplicidade deles cativam a minha mente e coração, e observo que o mesmo acontece com os que estão ao meu redor. Eles vão ao ponto, não precisam de exercício exegético acurado para compreender e comunicar a essência de um texto, e não estão preocupados em exibir uma performance de "ungidos". Quero me tornar mais parecido com eles, sim.

Mas voltando aos "ungidos" da média estereotipada, Deus me livre de deixar de ser quem sou para incorporar alguém que não sou. Explico: sou ungido, sim, mas não para reproduzir e retro-alimentar os tais estereótipos. Ao menos não no que está pegando em termos de modelos em várias igrejas brasileiras -- e em algumas outras partes do mundo, é claro.

O Senhor me deu o dom de pregar desde aos 16 anos de idade, num contexto missionário trans-cultural e desafiador. Desde então procuro ser fiel à esta vocação, sem cessar de aprender e crescer, de modificar e de abrir horizontes. Não parei no tempo, não me escravizei a nenhum dado modelo de mercado de consumo religioso. Tive e tenho uma experiência carismática forte, mas faço clara distinção entre Essência e forma, Espírito e estilo, Vinho e taça, Centro e borda, Miolo e casca, Néctar e bagagem.

Não compro as espiritualidades personalistas, patológicas e empacotadas que tenho observado em púlpitos de muitas partes do Brasil. Conquanto respeite quem viva algo diferente do que eu sou e faço, não faço de ninguém um modelo estanque. Aprecio que líderes cristãos façam o trabalho dentro de suas próprias maneiras culturais e em coerência com suas personalidades, mas não mudo a minha voz, nem o meu tom, nem o pouco cabelo que ainda me resta para me parecer mais com estes ou aqueles, só porque são considerados "ungidos". Afinal, vai muito da composição histórica, da experiência, da razão e da natureza de cada um.

No que tange a mim, contudo, assim como a tantos outros que não são muito diferentes de mim, optei por uma pregação cuja espiritualidade é marcadamente Trinitária, integral, contemplativa, solta, informal, analítica, reflexiva, crítica, questionadora, acolhedora, silenciosa, inquieta, engajada, consciente e calcada nas Escrituras. Hoje me percebo investindo mais no silêncio e na contemplação, na leitura e na observação atenta do que se passa dentro e ao redor de mim. Enquanto oro com vistas à pregação, mantenho meus olhos bem abertos, lembrando que o Jesus de Nazaré dava especial atenção em abrir os olhos dos que não viam.

Optei e me vejo ungido, sim, para uma pregação cuja prática é educativa e cuja pedagogia é a da autonomia do ouvinte. Não a que gera dependência no pregador. Parafraseando Paulo Freire, não há pregação sem o ouvinte e sua respectiva experiência concreta. Por esta razão, minha prática de pregação exige rigorosidade metódica, pesquisa, respeito aos saberes dos ouvintes, criticidade, estética e ética, corporeificação das palavras pelo exemplo. Exige risco, aceitação do novo e a rejeição a qualquer forma de discriminação. Exige reflexão crítica sobre a prática, além do reconhecimento e a assunção da identidade cultural. [2]

Concebo com segurança que pregar, assim como ensinar, não é transferir conhecimento. Por isso dou boas-vindas à consciência do meu próprio inacabamento e ao reconhecimento de ser condicionado. Dou o devido respeito à autonomia do ser do ouvinte, uso de bom senso e o faço com humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos ouvintes, não dos meus direitos enquanto pregador. Aprendo da realidade, nutro minha alegria, esperança e curiosidade à respeito dela, e, mais que tudo, falo na convicção de que transformação é possível e necessária. [3]

Navego tranquilamente na convicção de que pregar é tanto uma matéria de composição divina quanto uma especificidade humana. Por isso, exijo de mim mesmo segurança, competência ministerial e generosidade, além do comprometimento e do exercício de compreender que a pregação é uma forma de intervenção no mundo. Isso implica que a minha pregação é inevitável e irremediavelmente ideológica. Enquanto prego, não negligencio a liberdade e a autoridade, tomo decisões conscientes, procuro saber escutar antes de falar, disponho-me para o dialogo antes e depois da pregação, e quero bem aos que me ouvem. [4]

Creio plenamente na graça do Eterno, na regeneração advinda do sacrifício feito na cruz pelo Jesus de Nazaré, no poder santificador e orientador do Parácleto, na veracidade, integridade e integralidade das Escrituras. Faço disso tudo o eixo da minha atitude e conteúdo. Me dobro, me curvo, me coloco genuflexo no espírito em lugares de pregação; não à eles enquanto fim em si mesmos, mas a Alguém, sabendo que não estou ali por mim, mas por Ele e pelos seus.

Procuro falar menos pra não falar demais. Sei que a revelação do Pai das Luzes se silencia na voz do pregador quando este se ocupa em falar demais. Não desejo que o som da voz do Eterno sofra um eclipse causado pelas sombras que a precipitação e o excesso de palavras impõem ou imputam à revelação.

Por isso, procuro me silenciar quando necessário, reconhecendo que há algo muito além do que a linguagem verbalizada pode comunicar e operar. Ao silenciar-me, confio plena e radicalmente na assistência do Espírito Santo, da mesma forma e na mesma medida em que confio n'Ele quando abro a boca. Isto acontece quando eu, enquanto pregador, começo por admitir os limites do meu próprio pensamento teológico, e me posto silencioso, humilde, contrito e genuflexo na presença de um Deus que está acima e além das minhas tentativas de comunicá-Lo, de descrevê-Lo, de tangê-Lo.

Dito tudo isso, resta-me dizer apenas uma coisa adicional: sei quando parar, porque já falei o bastante e calar-me, à partir de determinado ponto, se faz necessário e pedagógico para o bem do ouvinte, não para o meu próprio bem!

_____________________

[1] Falo sobre as duas experiências no capítulo “The Challenges of John Wesley’s Theology in Latin American Mission Contexts”, em World Mission in the Wesleyan Spirit, editado por Darrell L. Whiteman e Gerald H.
Franklin, TN: Providence House Publishers, 2009. Pp. 81-92.

[2] Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção Leitura), pgs. 21-46.

[3] Ibidem, pgs. 47-90.

[4] Ibidem, pg. 91-146.

Copyright © Janeiro 2010 Luís Wesley de Souza
.

1 Comentários:

Blogger Carlos Passeri disse...

Shalom meu amigo! Parabéns pela reflexão! Gosto do seu jeito e da sua sinceridade, e, como vc, também não tenho o menor interesse de fazer o tal encontro ou estar na dita visão,(mal ou bem) Deus o sabe, porque encontro com Deus na verdade foi encontro com os homens e mulheres que o nosso irmão e evangelista João escreve no seu prólogo. Vlw parceiro!

Pastor Carlos Alberto Passeri

20:50  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Início

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape