L. Wesley's COMMUNITÀS

Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

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Nome: Luís Wesley
Local: Atlanta, GA, United States

Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Sábado, Novembro 14, 2009

APAGÃO NO BRASIL


Que raio, que nada!
Foi um estagiário da Itaipú.
Alguém falou pra ele:
“Quando sair, desliga tudo!”

Quem precisa de raio quando se tem estagiário?


Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Aldeia Alegre e Prazenteira


Histórias da minha história


Saudades são visitas que as memórias fazem à alma, e esta se encarrega de dizer pra onde queremos voltar, ainda que apenas pela via das lembranças. Memórias são tesouros que a gente sempre guarda, mas nunca às sete chaves! Elas são livres, surpreendentes. Voltam mesmo quando não são convidadas, e chegam com forças capazes de redimir, de nos devolver a vida e o significado. São inspiradoras, nostálgicas, atraentes, envolventes, apaziguadoras e afetuosas. Dizem não somente de onde viemos, mas também a respeito de quem somos.

Tenho memórias que remontam desde os meus 3 anos de idade, quando morávamos em Jericó, nas serras do Vale do Paraíba, há 18 quilômetros de Cunha, SP. Eu sou um “jericoense” de coração e de alma. De lá vim e pra lá quero voltar. No início dos anos 60 alguém que se apaixonou pelo lugar compôs uma música sobre Jericó. Nunca foi gravada, senão nas mentes de alguns poucos, dentre elas a minha. A primeira estrofe dizia o seguinte:

Jericó é uma aldeia pequenina,
Sempre alegre e prazenteira.
Uma cascata e uma igreja na colina,
De gente boa e hospitaleira.

Jericó era isso mesmo. De longe via-se a cachoeira e, mais acima, na colina, o templo metodista. Quando lá se chegava, percebia-se que era mais do que isto. Aos fundos havia um salão social e outras instalações. Ao lado uma casa pastoral, e, mais adiante, uma escola rural.


Não havia bancos, nem contas bancárias, nem saldos, e nem a angústia da falta deles.
A ROTA não passava na frente da casa da gente, fazendo sugerir que a vida lá fora é perigosíssima demais. Não se recebia nem se fazia cobranças. O suprimento alimentar era compartilhado, o pão era feito em casa, e a farinha, o arroz e o açúcar eram trazidos de Cunha em jeepes ou no lombo dos burros. Tudo o mais era produzido ali mesmo na horta, na granja, na roça. Não se dormia tarde e os dias eram repletos de simplicidades, calmarias e natureza.

Perto do templo havia um “estacionamento de cavalos”. Era como eu chamava o estábulo de duas faces que, no domingo, ficava repleto de cavalos, mulas e éguas ainda com arreios, garupeiras, estribos e rédeas. O estábulo coberto fora constrído pelos próprios membros e simbolizava a cultura simples, não agitada, aberta e acolhedora do sertão.

Costumava ir até lá para olhar, por entre as frestas e pelos vãos das tábuas, o túnel que se formava entre as pernas das dezenas de animais enfileirados um ao lado do outro. Enquanto observava aquela quantidade de patas, algumas socando o chão pra espantar os mosquitos, minha imaginação viajava: "Como seria correr agachadinho ao longo deste “túnel”?

Do que me lembro, este foi um dos únicos riscos imaginários que nunca tentei correr de fato e de direito. Era
menininho ainda ingênuo, mas muito imaginativo e já vivido o bastante pra saber que, se tentasse tal loucura, seria trucidado e defenestrado aos coices!

O jovem Samuel, meu pai, com pouco mais de 24 anos de idade, era o ministro daquela igreja sertaneja. Ele fez história. Conquistou a congregação com seu extraordinário dom de fazer frequentes visitas pastorais, de caçar e pescar com os membros; de capinar, roçar e de cavalgar com eles. A família mais próxima morava há quilômetros, e o transporte era animal mesmo.

A igreja possuía uma “mula pastoral” que tinha um instinto extraordinário de memória. Sabia os dias e horas em que partiria levando no lombo o pastor de Jericó, este sempre e irremediavelmente enternado e engravatado em pleno sertão empoeirado. Não era preciso buscar a mula no pasto. Ela vinha sozinha, aos galopes, rinchando e pedindo milho. Enquanto era arreiada por meu pai, estufava a barriga pra depois soltá-la quando ele a montava. O bicho era tudo, menos burro!

Foi de Samuel que partiu a idéia de instalar, logo ao lado da cachoeira, o primeiro gerador de energia elétrica, o que possibilitou iluminar a aldeia. Ele contatou o Sr. Schneider, de Guaratiguatá, SP, e instalou um motor cuja chave liga e desliga era um arame estendido sobre roldanas por mais de seiscentos metros colina acima, até alcançar a casa pastoral. Fazia-se uma força descomunal para puxar a chave e encaixá-la no gancho. Para desligar, era-se quase sugado pelo peso do arame estendido.

Não somente isto. Como não havia telefones, celulares não passavam de imaginação doida de cientistas malucos, e "aldeia global" era uma idéia que ainda estava por nascer, Samuel tomou a iniciativa de avançar a tecnologia de comunicação daquela comunidade. Instalou o que havia de mais moderno em auto-falantes que lançavam o som à longuíssima distância, uma espécie de rádio musical campineiro e sertanejo.

Seguindo as estações e o calendário litúrgico, ele colocava músicas e hinos nos sábados à tarde e nos domingos pela manhã. Era esta a suave e melodiosa lembrança que ele fazia aos sitiantes e fazendeiros circunvisinhos, seus peões e empregados, ricos e pobres, de que lá na colina havia um lugar de
encontro, para o qual todos eram convidados e bem-vindos.

Foi em Jericó que vi meu pai esconder, por vários dias, líderes da confederacão
e da federação de jovens da Igreja Metodista. Por suas posturas de contestação à ditadura militar que acabara de se instalar através de golpe, denunciados por lideranças da própria denominação, eles corriam riscos de serem pegos, torturados, exilados e até mortos pelo regime que usurpou a democracia e instaurou o terror contra estudantes discidentes. Por esta via e em Jericó, meu pai construiu em mim a cultura da sensibilidade, da justiça e da solidariedade, ainda que tivesse que correr os riscos de dar cobertura a perseguidos políticos.

N
uma certa ocasião, vi meu pai prender um bandido fugitivo no escritório pastoral da igreja de Jericó, orar pela conversão dele e, no dia seguinte, convencê-lo de se entregar à polícia para, daí, levá-lo no lombo da mula para Cunha e devolvê-lo à cadeia. N'outra ocasião, ouvi minha mãe contar sobre meu pai que, montado na mesma mula, enfrentou gente armada na mesmíssima estrada para Cunha, porque ele resolvera, após várias pregações e muita advertência, denunciá-los ao poder público por zoofilia.

Com a coragem de quem é homem-macho e a ousadia de quem é homem-de-Deus, mesmo sob ameaça à mão armada, Samuel passou cavalgando sem titubear por meio deles dizendo que "era isto mesmo que iria fazer, quisessem ou não, para o bem deles próprios, de suas famílias, dos animais e da sociedade." Isso tudo no início dos anos 60 e no Vale do Paraíba, onde e quando uma denúncia dessas poderia significar a morte do denunciante. É mole?

E
u tinha apenas seis meses de idade quando meus pais mudaram-se para Jericó, e morei lá até aos seis anos. Cresci conhecendo apenas isto — uma igreja no sertão construída no início do século 20, cercada de montanhas, de verde, de beleza natural, de animais domésticos e silvestres, de pássaros raros, de matas, de penhascos e campos.

No final das tardes de verão, minha mãe, Maria Edi, nos chamava para a varanda e, de lá, olhávamos os micos-leão-dourados que desciam das árvores e passavam sobre a porteira acompanhados dos filhotes que os seguiam relutantes ou permaneciam grudados nas costas dos pais. Ah, aquela cena! Era o ápice do dia! Sinal de que o que era bom se repitira novamente, e amanhã outra vez.

Enquanto ouvíamos histórias que minha mãe contava — ela era educadora nata e intuitiva —, observávamos o por do sol. Depois ficávamos horas contemplando o luar, as estrelas cadentes e o escurecer dos vales ao som das cigarras e do pisca-pisca dos vaga-lumes. “Vaga-lume tem tem, teu pai tá aqui, tua mãe também!”, cantávamos juntos.

Nair, minha irmã adotiva, à pedido da própria mãe natural, fora trazida já moçinha para a casa dos meus pais e se tornou a irmã babá de todos os filhos que Samuel e Maria Edi tiveram: Léa Wesley, Luís Wesley, Leila Wesley e Leda Wesley. A Leila quase nasceu no sertão jericoense e, quando nos mudamos de volta pra São Paulo e depois para Santa Catarina, deixou seus padrinhos lá. A Leda não morou em Jericó, mas visitou e voltou prá lá nas várias vezes que passávamos as férias de janeiro na aldeia.

Aos fundos da residência havia um pequeno chiqueiro, uma horta, um bananal e um bambuzal. À esquerda da casa havia um paiol e uma oficina de ferramentas. À direita um pomar onde havia pessegueiros, pereiras, macieiras, marmeleiros, laranjeiras e parreiras.

Eu tinha uma relação bastante ambígua com os marmeleiros, já que davam frutos deliciosos e forneciam as varas com as quais eu apanhava quando fazia "artes". Quando estava por apanhar, eu, o próprio, era responsável por ir até um marmeleiro, escolher, limpar e trazer a vara, e entregá-la aos meus pais. Abuso? Não para a minha alma, nem para a excelente formação que eles me presentearam.

Entre a cachoeira lá embaixo e a igreja lá em cima, havia um conjunto de pedras majestosas. Meu pai costumava dizer que tinham sido erigidas por tribos primitivas, há centenas e centenas de anos. Nunca tive a exata noção do que aquele lugar pudesse significavar para os primeiros habitantes do terra. Somente décadas depois, quando estudei antropologia cultural, concluí que poderia ter sido mesmo um altar ou um marco histórico para algém.

Enfim, era o meu lugar preferido para brincar, correr, imaginar, olhar em direção ao vale, enfiar a cabeça nas frestas das pedras, atirar pequenas pedras roliças em estilingue, gritar e ouvir os ecos que voltavam segundos depois, enquanto olhava para as barbas de um enorme chorão que ficava logo abaixo. Me imaginava grande e pequeno,
fraco e forte, livre e anexado, alado e enraizado... tudo ao mesmo tempo.

Uma das pedras
se projetava para um lado do vale, outra tinha o formato de um sapo, outra de um busto sem cabeça, e a outra, bem ao lado, de um retângulo mal formado, mas muito semelhante à pedra visinha. Estas últimas são a maior evidência de que aquele lugar tenha sido fruto de um prossível trabalho de ancestrais.

Eu costumava subir e descer de todas elas, sentia o solo sólido e cálido debaixo dos meus pés descalços, como se a vida jamais,
em hipótese alguma, viesse um dia a se abalar. Me imaginava dono daquilo tudo: igreja e cachoeira, pedras e vales, pastos e carreadores, árvores e campos, barrancos e estradas, riachos e montanhas, seriemas e jacús, azuis do céu e verdes da terra.

Centenas de andorinhas migratórias, após voarem milhares de quilômetros, desde o sul do Canadá, passando pelos Estados Unidos, México e América Central, cruzando oceanos, rios, cordilheiras, a Amazônia e o planalto central, chegavam no doce calor da primavera e se instalavam em Jericó.

Gostavam do convívio humano e preferiam as frondosas árvores ao redor da igreja, o topo da torre e os beirais das instalações. Faziam ninhos e se reproduziam, e, como que numa constante celebranção da vida, promoviam revoadas e cantavam o dia inteiro. Bem escreveu o poeta ambiental José Júlio Azevedo:

Voa, voa, andorinha,
Você não é de ninguém, nem minha.
Voa, voa no céu de Deus
Voa junto a milhares seus.
Peregrinas no espaço
Pastam invertebrados na roça
De tardezinha sobrevoam [a aldeia]
Desenhando no ar uma palavra: Felicidade!
Andorinha de verão
Voa do Norte para o Sul,
na rota do sol
Nunca verão planeta como este.
Seu horizonte é azul.
Voa, voa andorinha
Sem brevê, sem passaporte
sem carteira de identidade
nem fila do INSS
Aninha em seu coração navegante
o sonho da liberdade!*

Enquanto isso, os pardais, os tico-ticos e as corrílas faziam a festa. Os canarinhos, sabiás, pássaros azuis, pinta-silvas, codornas, quero-queros, vira-bostas e saracuras completavam o coro. Nem as galinhas, frangos, galos e pintainhos destoavam. E a música da qual mais me lembro,
aquela composta pelos apaixonados por Jericó, feita por humanos que costumam dar harmonia à vida da gente pra onde quer que ela siga, tinha um estribílio que ainda canto aqui dentro:

Jericó, Jericó.
Quem me dera aqui voltar para ficar!
Jericó, Jericó.
Quem me dera aqui voltar...

(CONTINUA)
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*José J. Azevedo, "Andorinhas", 1992 (itálicos meus, adaptação entre colchetes minha; forma original: "De tardezinha sobrevoam a cidade").

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