L. Wesley's COMMUNITÀS

Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

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Nome: Luís Wesley
Local: Atlanta, GA, United States

Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Sábado, Outubro 31, 2009

Ah, João!

Histórias da Minha História
Incluindo partes novas!

Seu nome era João, que fora pai de Inácio, que fora pai de Pedro, que fora pai de Samuel, que é pai de Luís Wesley, que é pai de Filipe, Matheus, Talitha e Luís Wesley Júnior. João, que era senhor de engenho nas cercanias de Angra dos Reis, RJ, gerou a Inácio daquela que era sua escrava protegida, a quem amava como a nada e a mais ninguém.

Inácio, não muito depois da abolição da escravatura no Brasil, gerou a Pedro daquela que fora descendente de escravos livres. Pedro, de pele escura, palmas das mãos e planta dos pés brancos, teve vinte e três irmãos, onze dos quais eram irmãos da mesma mãe. Os outros doze irmãos do mesmo pai foram gerados por uma outra mãe. Inácio tinha duas esposas, a descendente de escravos livres e uma descendente de europeus que migraram para o Brasil no século 19.

A história de João, Inácio, Pedro, Samuel, Luís Wesley e seus descendentes, não é tão óbvia quanto parece. Gerações se sucederam umas às outras, os contextos se transformaram, as relações se redesenharam. Novas histórias foram vividas, com trajetórias diferentes de nuances peculiares e de experiências formatadas por cosmovisões diversas e, de certa forma, conectadas.

Eu, Luís Wesley, de pele branca e genuína negritude mestiça no coração e nas veias, descendente de João e de sua escrava-esposa, e de Inácio e sua escrava livre, quero contar e recontar esta história, sem nenhum outro objetivo senão o de aprender, uma vez mais, que a gente é gente, gente!

Do pouco que se sabe de João

Parte da família afirma que João era bom com seus escravos. Contra senso. Afinal, quem é bom não tem escravos! Quem é bom tem amigos e parceiros numa caminhada justa e igualitária. Não escravos.

De quem teria vindo, então, esta estória de que João era bom? Ninguém sabe. Mas, a julgar pela cultura da época, esta imagem de "João-bom" pode ter sido vendida por ele mesmo, por seus amigos, ou por seus filhos, noras e genros, ou ainda pela própria esposa-escrava protegida.

Dada às circunstâncias escravagistas, ser escrava protegida era um status excepcional, conferido apenas às escravas saudáveis, lindas, esguias, sensuais, atraentes e, sobretudo, prendadas. João podia ter apenas fama de ser bom, sem sê-lo, com os escravos, mas foi certa e definitivamente muito bom na escolha de uma dada escrava para ser mais do que protegida -- tornar-se esposa do patrão.

Fala-se, contudo, que ela também o amava e protegia, que era ela quem governava a casa e educava os filhos. Mais do que isto, conta-se que ela tornava a vida dos escravos mais digna, livre de chibatadas e punições... enfim, das desumanidades características da escravidão, por si mesma horrenda. Fala-se também que ele, João, era só ouvidos pra ela, e que, por esta razão, muitos ex-escravos escolheram (sic) permanecer no engenho após a abolição.

A intrigante história de Inácio


João teve muitos filhos, dentre eles Inácio, o primogênito. Inácio era muito jovem ainda quando resolveu se casar com aquela por quem era apaixonado desde criança -- a filha de escravos livres. No dia do casamento, contudo, o pai de uma moça branca e de feições européias, veio à casa de João e pediu que ele exigisse que Inácio acolhesse a filha em sua futura residência, ainda que como segunda esposa, já que Inácio a tinha deixado "de bucho cheio". Sim, Inácio vinha se aventurando, em bases contínuas, com a mocinha branquela.

João, em nome da "honra" -- sabe-se lá de quem! --, usando de sua autoridade múltipla (pai, senhor de engenho, etc), além de se deixar dominar pelo orgulho próprio (afinal, ele era o "João-bom"!), fez com que Inácio recebesse a moça em sua casa desde o primeiro dia de casamento.

Punição? Provavelmente. Entretanto, esta decisão veio a formatar uma relação poligâmica que se extendeu por muitos anos, resultando em vinte e quatro filhos plantados, concebidos e gerados em duas mulheres.

Ter um senso de justiça mais aguçado era a virtude de Inácio, o que, na prática, se provou até no número de filhos que teve com cada uma. Seu senso de igualdade, contudo, se estendeu, de forma mais evidente, para outras áreas ao longo de sua história.

Inácio no protestantismo - Num certo domingo de verão, Inácio decidiu aceitar o convite de um pregador para ir à igreja protestante. Vestido de paletó e calça de brim cuidadosamente passados com ferro à brasa, usando botas rancheiras, daquelas que rangem quando se caminha, de espora, chicote e chapéu, Inácio adentrou uma igreja pela primera vez.

Segundo ouvi, sua entrada impressionou o pequeno número de congregantes, porque ele se fez acompanhar das duas esposas e de todos os filhos. "Foi quase como uma parada militar", disse-me há dezenove anos uma amiga da família, hoje falecida. "Era uma fila enorme que demorou para entrar e se acomodar totalmente."

Inácio tinha o costume de andar com a família quase todos os dias, e, sendo o sertão repleto de caminhos estreitos nos pastos, prados e montanhas, feitos pelo andar constante do gado, todos vinham em fila enquanto conversavam, se desviavam dos estrumes das vacas, brincavam e se divertiam com qualquer que fosse o motivo enquanto caminhavam e observavam a paisagem, numa mistura interessante de negros, brancos e mulatos.

Foi assim que entraram na igreja, tanto na primeira como em todas as demais vezes que lá foram: em fila escalonada, a começar dos menores, dois dos quais eram bebês carregados no colo de cada esposa, e indo para os maiores.

Calçadas estrumentas - A igreja dobrou o seu número de participantes num só domingo, professores de escola dominical para adultos, jovens, juvenís, criancas e até de berçário tiveram de ser recrutados imediatamente, e um sino foi comprado para avisar a família -- que morava distante no campo -- quando havia alguma atividade especial em dias diferentes do domingo.

Novos problemas surgiram para a pequena igreja também, como por exemplo, o volume de estrume de cavalo deixado na calçada que teve de ser adaptada para acomodar os animais selados e emparelhados desde a manhã do domingo até o final do culto protestante da noite. Vida de cavalo nas mãos da família de Inácio era coisa dura, e a vingança vinha da forma mais estrumesca possível.

A exigência moral feita a Inácio - Aquela versão do protestismo, assim como a esmagadora maioria delas em contextos culturais monogâmicos, não aceitava que um homem pudesse ter duas mulheres. A exigência para que Inácio tivesse uma só esposa não tardou quase nada. Também exigiram que ele escolhesse com que família queria ficar.

Ele deveria não somente decidir-se por uma dentre as duas esposas, mas também sobre quais dos filhos manteria como sua família. Na lógica daquele protestantismo, filhos "bastardos" deveriam ser desconsiderados.

Inácio tinha ao seu redor todas as racionalidades sociais e supostamente bíblicas possíveis para legitimar o abandono de uma das famílias. A igreja, neste caso, se encarregaria de apaziguar sua consciência pelo abandono. Afinal, os únicos a sofrerem as consequências das escolhas anteriores de Inácio ao formar duas famílias, seriam os abandonados.

A decisão de Inácio - Inácio lutou muito, se contorceu ao considerar se deveria ou não aceitar a demanda. Temente a Deus, tendo tido uma experiência de conversão ao Jesus de Nazaré, tomou a decisão mais justa e razoável que pode conceber. Sua decisão mostrou o quanto estava à frente de seu próprio tempo.

Para a surpreza de todos, Inácio dividiu a pequena fazenda em duas partes iguais, fez uma cerca vegetal facilmente transitável de fora a fora, e, na frente da fazenda, construiu duas casas idênticas. Colocou em seu testamento que as esposas e seus filhos ficariam com as partes tal qual foram divididas, respectivamente.

Inácio foi mais além. Fez um quintal gramado, aberto e conjugado em frente às duas casas e definiu que os meninos continuariam brincando juntos e como irmãos, e que seriam sempre livres para visitar ambas as casas como se fossem deles próprios. Decidiu que continuaria tendo a todos e a cada um deles como seus filhos e sua família.

Quanto a escolher viver com uma só esposa, optou por manter uma relação conjugal apenas com aquela com quem se casou por amor -- a negra. Colocou as duas mulheres em suas próprias casas, uma ao lado da outra, e as manteve com absoluta igualdade em coisas como recursos financeiros, mantimentos, suprimentos domésticos, respeito e afeto. Deixou de visitar a cama da européia branca, e concentrou sua energia dupla apenas na descendente de escravos livres.

(Acompanhe aqui a sequência desta saga nos posts das
próximas semanas, em Histórias da Minha História)

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Sábado, Outubro 24, 2009

Vai ler, camarada!


Carta de John Wesley a John Trembath

John Trembath,

O que tem prejudicado a sua vida no passado e, lamento dizer, até hoje, é a sua negligência quanto à leitura. Negligência tal que, por sua vez, chega a prejudicar até o próprio desejo de ler.

Dificilmente me recordo de um pregador que leia tão pouco. Eis a razão porque seu talento em pregar não aumenta. Você continua pregando como pregava há sete anos; com emoção, porém sem profundidade.

Falta variedade e conteúdo.

A leitura poderá preencher estas lacunas com meditação e oração diária. Você prejudica a si mesmo em omitir tal prática.

Desprezo à leitura impede alguém de ser um pregador maduro. Até para ser um cristão íntegro é mister a leitura adequada. Queira Deus que começasse logo!

Separe uma parte do dia para este exercício. Assim adquirirá o sabor por aquilo que faltava; o que parece monótono no início se tornará com o tempo um prazer.

Com ou sem disposição leia e ore diariamente. É para a sua própria vida; não existe outro caminho.

Faltando isso será para sempre um pregador superficial.

John Wesley
Em 17 de agosto de 1760
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Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Unamuno & Freire


"As idéias se têem, nas crenças se está."

Miguel de Unamuno,
filósofo espanhol,
em Idéias e Crenças


"Nunca tive que brigar comigo mesmo para me compreender na fé... Eu estou na minha fé. Então, eu nunca precisei de argumentações de natureza científica e filosófica para me justificar na minha fé."

Paulo Freire,
filósofo e educador brasileiro,
em entrevista disponível no YouTube

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Sábado, Outubro 10, 2009

Néo-Alcatrazes & Liberdade


Alcatraz, a legendária prisão localizada na Baía de San Francisco, Califórnia, EUA, serve de analogia para ilustrar as prisões eclesiásticas nas quais se vêem dezenas de religiosos. A fama e o mito de Alcatraz se fundamentavam no conceito de que se tratava de um complexo presidiário ilhado do qual ninguém conseguia escapar vivo. Contudo, a suposta inescapabilidade de Alcatraz não era uma realidade absoluta, senão na mente dos prisioneiros. A verdadeira Alcatraz residia apenas no imaginário da quase totalidade dos presos.

Tal imaginário era constantemente nutrido pelo próprio sistema prisional, que retroalimentava os medos, afirmando perigos que um prisioneiro em fuga encontraria lá fora: águas turbulentas, tubarões, guarda prisional, sentinelas, guarda costeira, ataques com armas de fogo e, por fim, a morte. Para que houvesse qualquer tentativa de fuga, o prisioneiro tinha que romper a primeira e mais intransponível barreira: conceber a possibilidade de que o mito da inescapabilidade era relativo, considerar os riscos concretos, desenvolver a coragem necessária para querer correr o risco de morte, e, acima de tudo, tentar!

A meu ver, hoje existem néo-Alcatrazes sendo alimentadas no imaginário de muita gente. Estas novas Alcatrazes não são somente representadas por certas empresas, sociedades, ordens, clubes, partidos, status quo's, convenções relacionais ou de amizade, mas também por organismos religiosos, notadamente por estruturas eclesiásticas. Estas costumam sugerir que, fora das suas muralhas domésticas, só pode haver incerteza, ignorância, anonimato, ausência de destino, despropósito, isolamento, desvalor, paralelismo, desaparecimento, invisibilidade e/ou morte ministerial.

Libertar-se destas néo-Alcatrazes implica traspassar a representação das grades, paredes e perigos até então nutridos em nosso imaginário. Esta libertação é tanto mental como espiritual, emocional e cultural, e, eventualmente, funcional. Razão pela qual se conquista sob o poder e ternura do Espírito Santo, com muita confiança no amor, na graça e no cuidado de Deus, para Quem e diante de Quem não há limites, nem distâncias, nem barreiras e nem morte, mas vida, e vida plena e abundante.

Valorizar os pequenos passos, rejeitar a super-valorização do consenso, querer correr riscos, planejar e viabilizar pequenas conquistas, ser persistente e não-conformado, são alguns dos segredos do processo de mudança de paradigmas e, neste caso, de libertação. Além disso, é preciso lembrar-se com carinho e apreço dos que ficaram, e, acima de tudo, respeitar aqueles que de forma alguma se sentem presos. No mais, é preciso lembrar que, independente do que nos tornamos dentro de instituições, fomos chamados à liberdade para servir com amor (Gálatas 5:13). Enquanto se luta pela liberdade, mantém-se o coração sempre latejante nesta convicção: "Tudo posso [no Cristo] que me fortalece".

Copyright © 2007 Luís Wesley de Souza

Domingo, Outubro 04, 2009

Imperfeição


A instituição igreja é imperfeita,
adotada por pessoas imperfeitas,
liderada por gente imperfeita,
num mundo imperfeito.
Se a gente tem a expectativa
de que será perfeita,
então seremos continua e
consistentemente desapontados.

A afirmativa não intenciona sugerir que a gente mergulhe numa de conformismo mórbido, de auto-mordaça profética, de supressão da massa crítica, ou de passividade histórica. Também não intenciona sugerir que a gente pare de sonhar, de querer, de perseguir ideais e de construí-los enquanto catalistas e agentes de mudança que somos. Afinal, infundir vida e ideal numa instituição igreja imperfeita é, antes de tudo, um esforço deliberado, cônscio e organizado por parte dos seus membros para construir uma cultura mais satisfatória.

O que está acima sugere, sim, a constatação de uma realidade que precisa ser entendida e abordada de forma a não causar danos quase irreparáveis aos relacionamentos com a fé, o entendimento da Graça reparadora e livre, e, é claro, com as pessoas, notadamente aquelas em relação às quais o coração da gente aprendeu a apreciar para além, aquém, por causa, através e apesar da instituição igreja. Afinal, pessoas são pessoas, nada mais; Deus é que é Deus, nada menos.

LWS
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