L. Wesley's COMMUNITÀS

Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

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Nome: Luís Wesley
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Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Americanos e brasileiros: diferenças no pastorado

Fonte*: Informativo do Instituto Jetro
Edição Especial, Liderança Pastoral, Setembro 2009

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Entrevista com Luís Wesley de Souza
Data de Publicação: 29/09/2009

Muitas são as diferenças das lideranças cristãs brasileiras e americanas: o uso da tecnologia, a interação, o preparo das pregações e o encorajamento para o aprendizado ao longo da vida. Além destes fatores, de forma mais marcante, a importância das emoções para os brasileiros e dos objetivos para os americanos. Conhecer o que estas características influenciam na condução das ovelhas é o objetivo desta entrevista, que aproxima as possibilidades de aprender uns com os outros levando em conta as potencialidades de cada cultura. (Parágrafo escrito pela editora)

Quais as diferenças quanto à liderança pastoral nas igrejas do Brasil e dos EUA?
Luís Wesley – A meu ver, são muitas as diferenças, mas vou apontar apenas quatro. A primeira diz respeito à questão tecnológica e de informação. A esmagadora maioria dos pastores americanos se vê razoavelmente cercada e provida de recursos tecnológicos, incluindo mídia externa e interna, aparelhagem eletrônica, instrumentação áudio-visual, boa biblioteca pessoal, amplo acesso às bibliotecas especializadas, assinatura de jornais e revistas; possuem computadores pessoais, acesso fácil e imediato à Internet, promovem comunicação rápida com a comunidade via e-mail, periódicos e mala direta. Pastores brasileiros, entretanto, em sua grande maioria, ainda trabalham com recursos tecnológicos muito limitados, possuem pouco ou nenhum acesso à mídia, usam recursos caseiros e rudimentares, lêem pouco os periódicos, têm dificuldade de acesso à Internet e comunicam-se pouco com a comunidade local, a cidade ou o bairro.

A segunda diferença é relacional. Pastores americanos se sentem confiantes no exercício de liderança ministerial, mas a maioria enfrenta dificuldades quando o assunto é interagir com outros. Segundo pesquisa do Barna Group, 61% dos pastores americanos admitem terem pouquíssimos amigos chegados, por exemplo. Perceba o contraste: embora cercados de informação, recursos tecnológicos e humanos, secretária, assistentes, equipes, etc., pastores americanos se sentem sub-apreciados e nutrem receios no que tange às dinâmicas de convivência e de expectativa relacionadas ao fato de serem líderes espirituais, e acabam por se desconectarem das pessoas enquanto “gente”. Pastores brasileiros, por razões sócio-culturais, possuem uma habilidade maior para estabelecer conexões pessoais duradouras, compartilham seu dia-a-dia com as pessoas, se vulnerabilizam e dialogam mais, sentem mais o coração dos outros e, na maioria das vezes, se deixam perceber nos seus sentimentos.

A terceira, que considero mais flagrante, diz respeito ao púlpito. Pastores americanos se preparam exaustivamente para a pregação de domingo, despendendo em média 20 horas por semana neste exercício preparatório. A maioria das pregações é o que se poderia chamar de “obra prima” da homilética e do conteúdo teológico, mas é voltada para a audiência apenas e intelectualmente exaustiva. As temáticas são geralmente atreladas ao calendário litúrgico cristão. O pastor brasileiro, contudo, fala diversas vezes por semana, de cinco a oito vezes em média, não elabora suas pregações com teores intelectuais ou acadêmicos, e não objetiva apenas a audiência e/ou congregação imediata. Tende a falar para a Igreja como um todo e se define mais dependente da oração e da direção do Espírito Santo, embora isto nem sempre seja uma realidade prática e observável. Gasta pouco tempo em oração pessoal, escreve pouco, lê pouca literatura de suporte e faz uma leitura bíblica geralmente intuitiva e voltada para o que "deve" dizer aos outros muito mais do que a si mesmo.

A quarta diz respeito aos recursos extra-ordenação. Pastores americanos possuem amplo acesso e encorajamento à educação continuada e programas de “life-long learning” (aprendizado para a vida). Suas igrejas e denominações lhes provêem recursos para participação em congressos, fóruns, grupos de mentoria, viagens, treinamentos e interação ministerial extra-confessional e extra-igreja local. Pastores brasileiros, por outro lado, sentem a necessidade de todas e cada uma destas coisas, mas recebem ou guardam poucos recursos para torná-las possíveis. Em razão disso, acomodam-se quanto a continuar aprendendo, deixam de ser ensináveis em suas dimensões de fé, experiência, missão e vida, e, consequentemente, aceitam o engano de acharem que, por medida de economia de tempo e dinheiro, lhes é suficiente serem autodidatas. Isto ainda é menos grave do que a preguiça intelectual que os leva a buscar e abraçar "pacotes" teológicos, eclesiológicos, metodológicos e estratégicos prontos para o consumo sem reflexão e sem senso crítico de aplicabilidade teológica, missiológica e contextual.

Levando em conta estas diferenças, o que podemos ensinar aos pastores dos EUA e o que devemos aprender com eles?
Luís Wesley – Penso que pastores brasileiros podem ensinar aos americanos que recurso tecnológico é útil e bom, mas nem sempre é fundamental para a boa comunicação interpessoal e nem pode ser encarado como meio sine qua non. Podem ensinar que a espiritualidade deve ser amplamente nutrida através da interação e da boa convivência com pessoas "de carne e osso", sejam amigos distantes, irmãos de caminhada ou gente estranha à convivência diária. Podem ainda ensinar que a pregação de domingo é importante, sim, mas não é a única coisa do decorrer da semana, e nem parte da escrivaninha ou do escritório para o púlpito como trajetória única e necessária, mas do concreto da vida para o entendimento e compartilhar do sentido da Palavra no contexto do povo, da Igreja e da nação.

Os pastores americanos podem ensinar aos brasileiros a encararem com mais responsabilidade o estudo e a preparação semanal com vistas à pregação. Púlpitos são igualmente vazios de kerigma e kairós quando encarados de forma irresponsável e despreparada, ou, como diria um bom camponês do norte pioneiro paranaense, "a Miguelão". O despreparo semanal tem conduzido muitos pastores brasileiros a “mastigarem borracha” nos púlpitos, com pregações caracterizadas pela apelação e a exacerbação emocional, e por sacadas repentinas pouco ou nada refletidas, inconsequentes e pouco bíblicas. Tais pregações mais parecem borrifos de água turva, morna e rala que nunca refresca ou rega a alma, a mente e o coração de forma edificante, profunda e duradoura. Como tal, o máximo que este tipo de púlpito consegue fazer é "dourar a pírula", deixando de ser profético e transformador. Os americanos também podem ensinar os brasileiros que a formação pastoral não cessa quando se completa um curso num instituto bíblico, seminário ou faculdade teológica. É necessário continuar ensinável e intencional na busca por novos entendimentos, perspectivas e introspecções.

Diferentes características culturais, tais como o fato de os brasileiros serem mais emocionais e os americanos mais objetivos, influenciam de que forma na condução das igrejas?
Luís Wesley – Dando mais espaço para as emoções, o líder cristão brasileiro tende a ser marcantemente intuitivo. Isto pode ser muito bom, mas também pode vir a ser devastador para a liderança ministerial de uma comunidade. Ser intuitivo pode marcar uma liderança ministerial extraordinariamente sensível, sintonizada, contemplativa, aberta, facilitadora, acessível e inovadora. Penso que é no campo da intuição que nos tornamos mais abertos para a ação soberana, humanizadora e criativa do Espírito Santo.

Há, contudo, um grande perigo quando colocamos demasiada confiança na auto-criatividade e no auto-discernimento advindos da intuição sem objetividade e sem relacionamentos que ofereçam questionamentos desafiadores ao indivíduo e à comunidade. Se o pastor se torna apenas intuitivo no exercício do ministério, negligenciará o fato de que o Espírito não se prende à intuição humana, nem à percepção de um só indivíduo. Ao confiar demasiadamente na sua própria intuição, o pastor desenvolverá um ministério místico, sem massa crítica, desconectado da realidade, não consciente do Reino, sufocador das metas e propósitos da igreja, negligente dos “anseios ocultos” do Povo de Deus, e inibidor do carisma, dos dons e da diversidade de talentos na comunidade.

O inverso também é verdadeiro. O excesso de objetividade, que acontece com mais intensidade no ministério dos pastores americanos (embora isto também caracterize alguns pastores brasileiros!) tem o poder de gerar certa inflexibilidade, de bloquear a dinâmica de infusão de vida, além de causar uma espécie de eclipse no entendimento ou discernimento sobre a direção em que o “Vento” está soprando. Enquanto missiólogo, consultor e instrutor nas Américas do Norte e do Sul, vejo que é possível construir uma objetividade que também se deixa governar pela intuição comunitária. Gestão de planos, projetos, iniciativas e metas, por exemplo, que outrora eram tabus, servem para capacitar e acompanhar líderes em várias frentes de abordagem, e hoje estão sendo encarados como úteis, relevantes, redimíveis e aplicáveis ao ministério cristão que se entende e se percebe cheio e guiado do Espírito Santo.

Quais as diferenças na condução das ovelhas das igrejas americanas e brasileiras?
Luís Wesley – Lembro-me de quando eu e minha família éramos membros de uma enorme igreja metodista em Lexington, EUA. Num domingo pela manhã, minha esposa e eu estávamos participando da nossa classe de escola dominical, e o pastor titular, para a surpresa do professor e de nós alunos, veio visitar nossa turma. Acompanhado pela esposa, ele permaneceu não mais do que três minutos na sala, trouxe uma saudação, e saiu rumo à outra classe. Do momento da saída dele até o final da classe, a turma abandonou a lição que vínhamos estudando e passou a falar apenas da visita do pastor naquela manhã.

Dentre as coisas positivas e negativas que aprendi do ocorrido, destaco uma negativa, ou seja, o fato de que aquela experiência denunciou a distância que geralmente há entre o pastor e as ovelhas. Enquanto família e indivíduos, por exemplo, nunca recebemos uma só visita pastoral ou telefonema pastoral, e todas as tentativas de buscar o cuidado do pastor dependiam sempre de agendamento muito prévio, isto é, com antecedência de longo prazo. As sessões de aconselhamento, quando agendadas a curto prazo, eram curtas e objetivas, e geralmente feitas pelos pastores auxiliares e/ou voluntários em seções geralmente formais e em termos profissionais.

Com algumas exceções, o cuidado pastoral dos brasileiros é feito mais no corpo-a-corpo, em bases relacionais, afetivas e aproximadoras. Isto é, o cuidado com as ovelhas é mais individual e familiar, sem deixar de ser coletivo. Neste jeito brasileiro de prover cuidado pastoral, a presença é encarada como algo fundamental. Olhar nos olhos, sentir o coração, dar lugar ao abraço, ao toque, ao afago lícito e à conversa longa -- sem ficar olhando no relógio à cada 3 minutos -- são coisas indispensáveis para a cultura brasileira.

John Maxwell em seu livro Parceiros de Oração (Editora Betânia), alerta para o fato de que nos Estados Unidos 30% dos pastores seriam tentados a “abandonar as suas responsabilidades” naquele ano. De forma geral, quais os pastores são mais sobrecarregados, os americanos ou brasileiros?
Luís Wesley – A questão da intuição e da objetividade ajuda a responder esta pergunta. Os pastores americanos fazem pouco com muita objetividade, e se frustram, enquanto os pastores brasileiros realizam muito com pouca objetividade, e se desgastam. O que mais estressa os pastores não é o volume de trabalho, mas o excesso de cansaços emocionais e espirituais advindos da falta de bom entendimento do que significa ser e fazer igreja e ministério. Em consequência disso, tiros são dados para todos os lados e para lado nenhum, o que cansa, aborrece, enfada e rouba o entusiasmo do coração.

Este cansaço gera muita frustração e insatisfação, e daí surgem os sentimentos que levam pastores a desejarem desistir não somente do que de fato importa em ministério -- a glória de Deus --, mas também de suas famílias e de si mesmos. Muitos acabam por abandonar por completo o que outrora era feito por paixão, chamado e vocação, mas que agora é feito por "honra da firma" e para a sobrevivência pessoal. Esta realidade se aplica tanto para pastores brasileiros como para americanos.

*Reprodução autorizada desde que mantida a integridade dos textos,
mencionado o site www.institutojetro.com e comunicada sua
utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com.
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Trecho escrito pela editora -- Luís Wesley, co-fundador do Instituto Jetro e da Faculdade Teológica Sul Americana, conhece bem as diferenças culturais nas Américas do Norte e do Sul. Foi pastor metodista no Brasil e, atualmente, é professor catedrático de Missão e Evangelismo na Emory University, Candler School of Theology, Atlanta, Georgia, e membro clérigo da United Methodist Church, EUA. Além destas vivências, seus estudos em nível de mestrado, doutorado e pós-doutorado foram feitos nos EUA. É pós-doutor em Teologia Prática e Práxis Religiosa pela Emory University, PhD em Estudos Inter-Culturais pela E. Stanley Jones School of World Mission & Evangelism, Asbury Theological Seminary, Wilmore, Kentucky (EUA), ThM em Missiologia pela mesma instituição, e bacharel em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo.
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Terça-feira, Setembro 22, 2009

Neys, velhinhas e Cássios.

Histórias da Minha História

Cássio e eu tínhamos apenas oito anos. Éramos amigos de bairro, de rio, de pandorga, de travessuras infantis. Junto com o Nícolas, o Edson e a Matilda (nomes fictícios, pessoas reais), brincávamos e jogávamos a tarde inteira na cancha de futebol de salão da Igreja Metodista da linda Porto União, SC, às margens do Rio Iguaçú.

O Cássio era esperto, astuto e super criativo, embora possuísse um olhar que misturava bravura e tristeza, desejo pela vida e medo dela. Sem ele, nossas tardes eram monótonas. Eu, o Luisinho (era como me chamavam), por outro lado, era muito ingênuo e extremamente tímido!

Todas as idéias malucas sempre partiam do Cássio, fertilizavam a imaginação de nós todos, e se espalhavam nas nossas brincadeiras como praga prazerosa, como pólvora incendiada que iluminava nossas tardes. Eu apenas seguia o fluxo do grupo, embora quase sempre relutante e cheio dos pudores de um filho de ministro metodista modelo anos 60, e que achava que podia e devia fazer tudo certinho, sem deslizes comportamentais de qualquer espécie e sem deixar margens para críticas alheias. Tudo pela honra da "firma", i.e., a igreja. Afinal, eu era não somente o “dono” da cancha, mas também o filho do Reverendo da cidade!

Um dia, o Cássio teve uma idéia, digamos, genial. Nós cinco montaríamos uma cilada para o Ney, filho de um oficial do regime de ditadura militar iniciado em 64, do tipo que apresentava a carteira de oficial-militar e ía logo dizendo, "Sabe com que você está falando?"

Ney era tido por nós como o filhinho de papai da rua, de quem ninguém de nós conseguia ser amigo por razões sociais e econômicas. No que tangia a mim, havia uma razão adicional da qual eu sequer tinha consciência naquela época -- a ideológica. O pai dele fazia questão de que se mantivesse afastado do filho do pastor metodista que recebia em sua congregação insurgentes ao regime militar.

Riquinho, ranzinza, gordinho, dentuço, cabelo ruivo cortado semanalmente ao estilo Recruta Zero e, o que é pior, Ney era a representação extrema do "Caxias-CDF" da cidade. Ele era o único da vizinhança que, por pura determinação dos pais, estudava à tarde e num colégio particular para, acima de tudo, não ter que se misturar com os meninos pobres do bairro. A razão secundária era pra não ter que repartir os muitos brinquedos de último lançamento da época. Eram muitos, porém todos brincados solitariamente, tornando-o egoísta e recluso.

O plano do Cássio envolvia até um treinamento divertido. Enquanto o Ney não passasse por ali vindo da escola de lancheira de plástico pendurada no pescoço e óculos tipo fundo de garrafa, a gente se esconderia atrás do monte de areia branca acumulada do lado de dentro do muro.

Assim, qualquer transeunte que se atrevesse a passar pela frente dos muros da igreja, levaria uma chuva de areia. Escondidos, ficaríamos quietinhos pra ouvir o barulho dos passos de quem quer que seja que transitasse pela calçada e, intuitivamente, saberíamos a hora exata de jogar a areia e nos escondermos imediatamente.

Fizemos isso com algumas poucas pessoas que, por mais que tentassem, não conseguiam saber de onde vinham os jatos de areia e seguiam murmurando pelos ares, balbuciando palavrões típicos de humanos afrontados, o que incluía, é claro, referências desonrosas às nossas inocentes mãezinhas.

Ríamos à beça, cada um a seu estilo. O Nícolas, por exemplo, filho de italianos provavelmente fugidos de Benito Mussolini, quando muito alegre ou muito nervoso, lançava a mão na cabeça e enrolava com dois dedos uma mexa qualquer de cabelo. O Edson ficava coçando o saco por cima do calção tipo sanfona, como se aquela nossa mais recente brincadeira se traduzisse, pra ele, em deleite genital. A Matilda pulava amarelinhas imaginárias enquanto ouvia as asneiras que dizíamos, e o Cássio se estirava na areia às gargalhadas. Ficávamos longos minutos comentando os detalhes do último "episódio arenoso", nos entusiasmávamos com a eficiência do plano, e logo focávamos n'outra vítima qualquer que se aproximasse.

“Olha! O 'bolha' do Ney está vindo!”, disse a Matilda com olhos brilhantes e saltados, cabelos amarrados ao estilo Maria Chiquinha, e tom de menininha maligna. Espiamos rapidamente pra vê-lo terminar de dobrar a esquina lá longe, e nos escondemos em seguida. Ficamos quietinhos e esperando a longa caminhada do Ney, geralmente em câmera-lenta, em direção à humilhação que jamais havia experimentado até então.

Cada um encheu de areia seca e fina as duas mãos que formavam uma só concha. O Cássio, contudo, sabe-se lá por que cargas d’água, sem que soubéssemos até então, pegou um tijolo partido ao meio, daqueles antigos, pesados e massudos, dando "sopa" bem ao lado dele.

Esperamos por um breve momento apenas, e em poucos segundos ouvimos passos rápidos e firmes. Por uma fração de tempo, baseado apenas no que ouvia, mas não via, pensei comigo: “Minha nossa! Como o Ney chegou rápido da esquina até aqui! E por que será que ele está usando tamancos e caminha tão rapidinho assim?” Interrompi este meu mais lúcido raciocínio quando lancei os olhos logo ao lado e vi Matilda deitadinha, com um lado do rosto descansado na areia e extendendo lenta e verticalmente o dedo indicador contra os lábios, como que dizendo pra todo mundo ficar quietinho, enquanto se segurava pra não rir.

Já bem treinados para saber da proximidade do “alvo” apenas usando a audição pra saber a hora de atacar, lançamos a areia que, obviamente, seguiu com o tijolo atirado pelo criativo Cássio. Ouvimos apenas dois sons, seguidos de um silêncio estarrecedor que pareceu uma eternidade, e depois percebemos que alguém vinha correndo na direção da vítima. O primeiro som foi o do impacto seco e tosco do tijolo naquilo que soou ser a cabeça de alguém. O segundo, mais apavorante, foi o de um gemido prolongado.

Fiquei intrigado e levantei a cabeça. Vi que o Ney vinha correndo esbaforido, com os braços abertos, com pernas que quase se trançavam com a força das curvas que precisavam fazer em função da gordura por entre as coxas, sacudindo a barriga como uma porca prenha e cheia de leitãozinhos, e com a lancheira se espalhando por todos os lados ao redor do pescoço. Percebi a palidez dele e, por um instante, pensei: “Hummm... Se ele está ainda no meio da quadra, correndo pra perto de onde estamos, quem terá sido acertado?”

Meu pensamento foi, uma vez mais, interrompido. Desta vez pelos gritos do próprio Ney: “Acudam! Acudam! Mataram uma velhinha!” Nos levantamos todos e, tomados de pura curiosidade infantil misturada ao medo, à ingenuidade e ao desespero, olhamos pra ver quem era.

Era mesmo uma velhinha de tamancos novinhos, nocalteada e estirada, com um talho enorme na altura da testa, uma sacola de sapé ainda presa ao braço cheia de pães d'água (também chamados de pães "bundinha") e duas longas bisnagas frescas (pães "bengala") que se projetavam de dentro da sacola como duas torres gêmeas.

Os visinhos, a maioria deles nossos pais, correram pra ajudá-la, diante da convocação do Ney, a quase vítima que, repentinamente, se transformou no herói esbaforido da hora. Em poucos segundos, meus amigos fiéis viraram “fumaça”, exceto pelo Cássio que, naquela altura, embora trêmulo, tentava inspirar ser o bravo escudeiro que nunca foge da responsabilidade pessoal. Eu, por outro lado, fiquei onde estava porque minhas pernas se recusavam a obedecer ao comando do meu cérebro momentaneamente apequenado.

Congelado, paralisado e atônito diante de tal tragédia, comecei a usar as únicas coisas que, apesar de travadas e trêmulas em meio às muitas engolidas secas, ainda funcionavam em mim: os lábios e a língua. “Não fui eu! Não fui eu!”, repetia inúmeras de vezes. "Quem foi, então, Luisinho?”, gritou alguém sob o olhar dos presentes.

"Diz pra eles, Luisinho! Diz! Diz logo que foi você! Assim a gente resolve isto tudo rapidinho… vai, Luisinho!", dizia o Cássio com olhos a esta altura desesperados e fitos em mim, como que dizendo “Me livra dessa, camarada! As consequências pra mim serão muito maiores se você disser que fui eu mesmo!”

Cássio era filho de pai violento, cujos abusos deixavam marcas visíveis e decifráveis. Sabíamos quando ele havia apanhado de cabo de vassoura, de salto de sapato, de fio de ferro, de fivela de cinto, aos chutes ou a murros. Ele andava sempre apegado ao irmãozinho, como que tentando protegê-lo de todo e qualquer mal que lhe pudesse ocorrer. Numa ocasião, assisti a uma cena em que o Cássio empurrou o irmão para trás de si, posicionando-se entre o pai e o irmão mais novo. Apanhou a surra do irmão, mas não desgrudou dele.

A velhinha acordou logo, zonza e meio confusa, mas rapidamente evoluiu sua melhora à medida em que cuspia areia e a traduzia em olhares de compaixão inexplicável por mim e por meu amigo Cássio. Para a nossa completa surpresa, os olhos dela pareciam pacíficos, sem qualquer demanda aparente em desvendar quem de nós dois era culpado por ter-lhe dado um tijolaço. Parecia já saber quem o teria feito.

Num dado momento, conquistado pelos olhos bondosos da velhinha, segui repetindo o que vinha dizendo dezenas de vezes, esquecendo-me, contudo, de usar a negativa “não”. Fitado por olhos que saltavam de bondade no meio do sangue que ainda corria da testa, passei a repetir: “Fui eu! Fui eu!”

"Não foi não, gente!", dizia o Ney com determinação. "Eu sei quem foi... Eu vi quando atiraram a pedra!" O olhar de todos se dividiam entre o Cássio e eu. Por um momento, cessei de repetir o inseguro e apavorante "Fui eu!", passando a ter pensamentos que viajavam no mundo das possibilidades:

"Se eu lhes revelar que foi o Cássio, ainda hoje ele será espancado pelo pai, e amanhã, se vier brincar, estará todinho quebrado. Mas se eu continuar dizendo que fui eu, a vergonha que virá sobre o meu Reverendo pai será enorme e mais grave do que levar as garantidas palmadas ardidas. Meu Deus! Tenho duas possíveis tragédias sequentes nas palmas destas minhas mãos ainda sujas de areia branca. Que opção devo escolher?"

(A história continua!)

Luís Wesley

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Billy Graham no TED 1998.


Há onze anos,
Billy Graham falou no TED
sobre tecnologia, fé e sofrimento.


Ele diz que a ciência tecnológica é admirável e
indispensável, ao mesmo tempo em que é incapaz
de lidar com problemas que só a fé no Deus que estava
em Cristo pode
resolver. Legendária palestra,
inesquecível, atual e sempre relevante.

(Para ver a versão com subtítulos em português, clique na frase em verde)


Segunda-feira, Setembro 07, 2009

Entrevista para a Revista Mosaico

Respostas às perguntas da jornalista
Suzel Tunes,
da Mosaico da FaTeo


Cara Suzel,
Paz e bem!

(1) Em que período você foi aluno da FaTeo?

Cheguei na FaTeo em Janeiro de 1979, fiz o curso nos quarto anos regulares, e me formei em dezembro de 1982. Fui o primeiro “pré-teológico” da Igreja Metodista, uma espécie de “cobaia”, cuja experiência me fez ganhar mais maturidade, mais solidez nas minhas convicções de chamado e vocação, além de me trazer a convicção de que era isso mesmo que eu queria – preparar-me para o ministério de tempo integral no serviço ao Reino de Deus através do movimento metodista.

(2) O que significou para sua vida (pessoal e profissional) ter sido aluno da Faculdade de Teologia?

O desejo de ir pra FaTeo ocorreu fortemente, pela primeira vez, quando ainda era adolescente e morava no Equador com meus pais e irmãs. A família missionária fora cedida pela Sexta Região Eclesiástica, enviada pela Igreja Metodista do Brasil, comissionada pelo Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina (CIEMAL), e sustentada pela Junta Geral de Ministérios Globais da Igreja Metodista Unida, EUA (GBGM-UMC), sob a supervisão de um bispo que é quase uma lenda: Sante Uberto Barbieri.

Lembro-me de que ele nos trouxe um exemplar do Expositor Cristão, no qual havia uma foto do Prof. Dr. Ely Éser Barreto César, de toga, num púlpito, pregando, e, na sequência, uma reportagem sobre um evento ocorrido na FaTeo, onde ele havia falado. Aquela simples foto representou em mim um imaginário de um futuro que poderia ser, e que acabou sendo, sob muitos aspectos.

Tornar-me aluno da FaTeo, contudo, foi um desafio pessoal em várias áreas, dentre elas o abandono do sonho que nutria, desde criança, de fazer medicina. A experiência missionária no Equador, conquanto ainda adolescente, fez crescer o desejo de usar a futura profissão médica n'algum contexto de missão trans-cultural.

A decisão de seguir pra FaTeo ocorreu no cerne de uma forte, inspiradora e transformadora experiência de avivamento na Sexta RE, sob a liderança do então bispo Richard dos Santos Canfield, que, além de mim, gerou líderes como Clóvis Pinto de Castro (atual presidente da UNIMEP), Estêvão Canfield (falecido recentemente, foi iniciador do Ministério Brasileiro e da primeira Igreja Metodista para brasileiros nos EUA, e era pastor em New Jersey), Josué Adam Lazier (hoje bispo emérito), Reynaldo Ferreira Leão “Léo” Neto (pastor metodista na Inglaterra), João Carlos Lopes (bispo e atual presidente da Igreja Metodista do Brasil) e outros contemporâneos.

A experiência de fazer parte de uma comunidade diversa, pluralista e acadêmica, conquanto tensa e em transição, como a FaTeo da época, me trouxe o espectro de vida de que precisava para não somente me capacitar para o ministério cristão na Igreja, mas também de me equilibrar, de me dar lastros firmes que, mais tarde, me lançariam para novas formas legítimas de ministério cristão, não somente em igrejas locais, mas também para além delas.

(3) Que episódio ou lembrança desse período ficou marcada em sua memória?

Pra se entender uma das muitas coisas que permanecem na minha memória do período que passei pela FaTeo (e ela passou por mim!), é preciso que eu fale um pouco de algo ocorrido na minha infância. Meu pai era pastor na linda Porto União, SC. Foi lá que, ainda menino, tive o privilégio e a honra de conhecer alguns dos excelentes representantes dos "anos rebeldes", alunos da FaTeo nos anos 60, gente que não abraçava os comprometimentos ideológicos e políticos de certos representantes da Igreja Metodista no que tangia ao estado vigente criado pelo golpe militar de 1964, que instituiu a ditadura: Herman Oberdick, Günter Bart e Nelson Tomasi.

O Herman Oberdick, por exemplo, cujos pais moravam em Porto União/União da Vitória, vinha em casa para conversar com meu pai e, enquanto isso, fazia pandorgas/pipas pra mim na varanda da casa pastoral. Eu ouvia todas as conversas, e sabia, por esta via, das crises na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista e do brutal e inconcebível fechamento desta.

Pouco mais de uma década depois, quando a minha turma chegou na FaTeo, quase todos os excelentes professores haviam se demitido, voltaram para as suas regiões eclesiásticas ou foram para a UNIMEP, resultando em três transições de reitoria nos quatro anos em que ficamos na FaTeo (Prócuro Velásquez, Duncan Alexander Reilly e Isaac Aço). Para mim, a retirada coletiva de professores foi como se a FaTeo tivesse fechado novamente e não o soubesse.

Lembro-me de que começamos com uma turma de 36 alunos cheios de sonhos e muita, mas muita ingenuidade institucional e teológica. Formaram-se 10 do grupo original, dos quais apenas alguns continuam no ministério pastoral efetivo até hoje. No segundo ano fizemos uma greve de silêncio, pusemos taxinhas na cadeira de um professor que, na ocasião, fingiu não ter sido espetado!, e fizemos outro chorar em plena sala de aula.

A nossa turma alegava que estava exigindo que se resgatasse a qualidade do ensino teológico que havia antes da saída dos professores. No fundo, contudo, éramos nós que estávamos ainda por aprender a sobreviver a uma crise que, aparentemente, não nos pertencia, mas que refletia um momento de transição da própria Igreja, algo que nos envolveria num futuro não muito distante.

Novos professores foram chegando, dentre eles os excelentes Tércio Siqueira e Paulo Lockmann, que nos apaixonavam em suas aulas de Antigo e Novo Testamento, respectivamente. Tivemos também os inesquecíveis Yoshikazu Takiya, Severino Croatto, Antônio Golveia de Mendonça, Geoval Jacinto da Silva e Duncan Alexander Reilly. Todos, indistintamente, nos proveram o que poderia haver de melhor na formação acadêmica e ministerial. No que tange a mim, eles me deram bases sólidas de uma reflexão critica responsável, comprometida com a realidade do mundo e da igreja, e me ensinaram a nutrir um labor teológico engajado e relevante.

Hoje, enquanto missiólogo formado pela rica espiritualidade de santidade social wesleyana, e por um evangelicalismo progressista (i.e., do movimento de “missão integral” brasileiro e latino-americano) que busca não dicotomizar evangelismo e transformação social, vejo-me no privilégio de ser catedrático de uma das maiores universidades metodistas do mundo, a Emory University, Candler School of Theology.

Com apreço,

Luís Wesley

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