"Os Evangélicos" na Globo?

Daqui dos EUA acompanhei de perto as reportagens apresentadas pelo Jornal Nacional que, diga-se de passagem, até então eram inéditas na Rede Globo e vieram com décadas de atraso aparentemente intencional.
A reação por parte de alguns grupos protestantes agora é hilária, o que, em certa medida, demonstra a ânsia quase unânime de verem seus trabalhos, sociais ou não, sendo abordados pela Globo e outros meios de comunicação, de maneira positiva e em cadeia nacional e internacional.
Apreciei cada uma das reportagens. Como bom metodista que sou, sentí-me muitíssimo lisonjeado por fazer parte de um movimento que, desde suas origens, procura desenvolver a prática do que chamamos de "santidade social", e por ver uma pequena pinçada demonstrativa disso ser exposta ao conhecimento da sociedade brasileira. Aliás, uma excelente pinçada no que tange ao destaque dado à Comunidade Metodista do Povo de Rua, intercalado com o testemunho público do evangelho do Reino por parte de gente que é transformada e de gente que transforma!
Apreciei, portanto, o fato de ver a exposição de ao menos um dos muitos ministérios desta natureza que são exercidos pela denominação, do Oiapoque ao Chuí -- ao longo dos anos, desde a primeira chegada ao Brasil dos missionários metodistas em 1836 --, através de suas igrejas locais, ministérios especializados e iniciativas individuais, muitas destas invisíveis até para a própria igreja.
Me pergunto, contudo: O que pode (ou não) haver por detrás deste afago público-Global? O que pode estar à frente do protestantismo brasileiro em geral após esta série? Só Deus e a Globo é que sabem realmente, imagino (rsrsrsrsrs).
Ficou claro que focaram apenas as igrejas chamadas "de tradição histórica", nenhuma das quais é proprietária de TV concorrente em cadeia nacional. Tom macio e simpático, além de flagrante entusiásmo na apresentação, sem falar de um certo toque naïve, da atitude tipo "veja como nós da Globo 'sempre' amamos vocês!", do velado preconceito em relação ao pentecostalismo em geral (ao menos na correção que fizeram da apresentação sobre os batistas), da ausência absoluta de apreço e consideração ao pentecostalismo clássico e deutero-clássico, etc.
Não estou e nem quero estar entre aqueles que estão falando tosqueiras destas reportagens da Globo. Alguns que assim o fazem, "até o anticristo colocaram no meio", como diz com propriedade o blogueiro Sérgio Pavarini (PavaBlog.com). Contudo, penso que os evangélicos brasileiros ainda estão por entender melhor a diferença entre poder de mídia e acesso (condicional) à mídia. Afinal, há implicações sócio-político-relacionais anexadas à esta diferença.
Como diz o ditado, "Gato molhado tem medo de água fria". Sou de uma geração que aprendeu a suspeitar, sem ceticismo barato ou de crítica apenas pelo bem da crítica, das intenções do quarto poder (os meios de comunicação), notadamente da Rede Globo. Esta, ao longo das últimas décadas, ocupou-se em privilegiar outros grupos religiosos em detrimento do protestantismo, quase sempre caracterizado como "seita". Nos anos 70, 80 e 90, antes e depois do final da ditadura militar, ouvi muitas de vezes o seguinte dos meus pares de geração: "Cuidado com a Globo, porque ela pode te fazer de bobo!"
Luís Wesley


