Reflexão sobre uma invasiva
relação de intimidade.
Eu e ela, ela e eu.Tenho alguém muito íntima de mim, de longe a maior e a melhor das amigas inimigas que jamais pensei, imaginei ou planejei possuir. Tenho com ela uma relação tão íntima e que se manifesta num grau de cumplicidade tal, que há momentos em que não sei se o que sentimos um pelo outro é amor, ódio ou o mais puro instinto de sobrevivência.
Tento compreender suas origens, seus conteúdos, suas faces, seus caminhos, suas notas, seus abismos, suas foices, seus remédios... Todos estes perfis me parecem óbvios e, ao mesmo tempo, obscuros e nebulosos.
Bálsamo, unhas e cobertor.Quando ela conversa comigo, com a doçura mais desejada que minha alma possa conceber, com uma voz cujos sons e timbres são quase imperceptíveis, invado-me pela impressão de conhecê-la desde minha mais tenra infância.
O seu tom me faz lembrar da voz de minha mãe, e, por essa via, ela me faz sentir como se eu estivesse voltando à experiência e à imagem de, em resposta ao meu choro, ser colhido no colo, amamentado e embalado por aquela que me amava sem condições.
Contudo, quando ela mostra suas unhas, cujas bordas cortam como punhal bem afiado, e me faz saber que são esmaltadas por uma incrível mistura de mel e fel, antídoto e veneno, ferida e remédio, o meu impulso mais óbvio é sair às pressas, à busca de um abrigo qualquer, o primeiro que aparecer, mesmo que esse seja sobre um travesseiro e entre o colchão macio, o lençol e o ededrom que me aquecem.
Me cubro depressa como aquela criança que tem medo de “Bicho-Papão”, como se este fosse fraco o bastante e ingênuo o suficiente para não pensar em tirar ou transpor o cobertor. Que ledo engano!
Paz ou perturbação.Aonde quer que eu vá, lá estará ela também. Me segue como um cão dependente de seu dono, ou como um dono apegado ao seu cão. Às vezes me deixa em paz, e às vezes em perturbação. Me cutuca, me instiga, me provoca, me toca, me povoa, me faz pensar, me invade, me exorta e me mata, para logo mais me consolar, me beijar e me reacender para a vida.
Ela é uma alternação que vai de uma amiga-inimiga a uma inimiga-amiga. Já tentei dizer-lhe que não mais quero conversar nem trocar idéias, mas ela é teimosíssima e extremamente persistente! Quer estar comigo, não importando onde, quando, com quem ou em que circunstâncias.
Nudez e crueza.Aliás, diga-se de passagem, com freqüência ela invade as minhas mais profundas intimidades e privacidades. Nada há que ela não conheça em mim, e a cama costuma ser o lugar onde ela mais gosta de me fazer companhia.
Abraça-me por detrás e pela frente, entrelaça suas pernas nas minhas, sussurra nos meus ouvidos me falando coisas indizíveis, me aperta, me agita, me excita e me relaxa. Tira o meu sono para devolvê-lo logo em seguida.
Nua e crua, ela se encaixa em mim de uma tal forma e com tal leveza que, depois de um certo tempo, passo a não mais saber se há algum espaço de qualquer espécie entre nós. Me verga, me entorta, me endireita novamente, me apruma, me faz rolar, me surra, me afaga, me põe genuflexo, me redime...
Intromissão.Intromete-se onde pouco peço sua ajuda, fala coisas sobre as quais pensei em não solicitar sua opinião, responde perguntas que formulei apenas e tão somente no íntimo e no mais absoluto e obsequioso silêncio, canta músicas antigas perturbadoras que pensei nunca voltaria a ouvir.
Mas, como numa mágica instantânea e paralela, ela me faz sentir em casa, como quando minha alma voava ao abrir os braços para recostar-me naquela rede da varanda da casa dos meus pais. Eu ainda era um menino sem noção de como a vida se desvendaria, mas que amava observar o vento tocando as árvores de folhas viçosas e cheias de frutas, e os pássaros silvestres pousando nelas.
O diálogo.“Por que você não me deixa?”, eu pergunto, mas a resposta é sempre a mesma: “Oras bolas... porque você não viveria sem mim! Porque seria como um tronco cortado, morto e lançado despenhadeiro abaixo, ou como uma folha que se desprende do galho e que, a partir de então, é levada por um vento que não possui nem parâmetros nem direção. Deixe-me ficar com você, eu lhe peço”, insiste minha amiga-inimiga.
"Tá bom, tá bom... Pode ficar!", eu replico e completo: "Afinal, de você o que mais quero é a Essência que te perfuma, o Aroma que me seduz, a Graça que me perdoa, o Sangue que me alveja e o Conteúdo que me forma."
E eu me silencio e me tranqüilizo nos braços desta eterna parceira de cama e travesseiro:
a Consciência.
Copyright © April 2008 Luís Wesley de Souza