Decálogo de um escritor sem literatura.

Judith*:
I. Minhas cartas são tão longas que, suspeito, nunca são lidas por inteiro;
II. Meus livros são tão longos que sequer me animo a terminá-los;
III. Meus contos são tão detalhados que melhor seria se não tivessem nem começo nem fim. Assim eu teria mais espaço pro meu virgulismo de detalhe;
IV. A vida se me apresenta tão tagarela que tornei-me um ser de algumas poucas palavras verbalizadas e de outras poucas apenas blogueadas;
V. Minhas idéias são criativas, mas sempre nutro dúvidas de que sejam inéditas. Afinal, não é possível que ninguém as tenha tido antes de mim, até mesmo o que acabo de dizer;
VI. Tento fugir de sacadas fenomenais. Nesta fuga, descubro que o óbvio pode vir a ser mais inimigo da escrita do que as sacadas;
VII. Saquei outro dia que as introspecções inéditas são um convite para a dúvida e, portanto, um possível bloqueio para a necessária confiança que se deve ter para serem colocadas no papel, na página do livro ou na tela do computador;
VIII. Esborracho o nariz e a testa intelectual quando, ainda que raramente, me permito seduzir por qualquer espécie de presunção acadêmica;
IX. Num mundo em que quase tudo já foi dito, gostaria de ser o herói "eureca" da escrita, e, uma vez mais, quebro a cara;
X. Acho absolutamente asquerosa a filosofia de originalidade enquanto "arte de esconder as fontes". Isso me faz querer antecipar-me às fontes, i.e., elaborar o meu saber antes que elas me digam o que quer que seja que estão lá pra dizer. Depois, então, eu as procuro como possível sustentação, e o que encontro são evidências da minha absoluta idiotice em pensar que realmente pudesse me antecipar às idéias já traduzidas em letra e literatura há um, dois, dez, cem ou mil anos!
Agora me diga uma coisa, Judith. Que conselho literário você daria a este escritor sem literatura? Por favor, seja generosa!
Luís Wesley
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Resposta da Judith:
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*Judith de Almeida, amiga de longa data, faz crítica literária e acumula grande experiência adquirida nas publicadoras que trabalhou, dentre elas a Editora Sepal e a Editora Vida Nova. Sua competência na área lhe deu o mérito de trabalhar com a Thomas Nelson, uma casa publicadora cristã fundada inicialmente em Edinburgh, Scotland, hoje com sede em Nashville, TN, EUA, e expandida mundialmente.


