L. Wesley's COMMUNITÀS

Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

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Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Neys, velhinhas e Cássios.

Histórias da Minha História

Cássio e eu tínhamos apenas oito anos. Éramos amigos de bairro, de rio, de pandorga, de travessuras infantis. Junto com o Nícolas, o Edson e a Matilda (nomes fictícios, pessoas reais), brincávamos e jogávamos a tarde inteira na cancha de futebol de salão da Igreja Metodista da linda Porto União, SC, às margens do Rio Iguaçú.

O Cássio era esperto, astuto e super criativo, embora possuísse um olhar que misturava bravura e tristeza, desejo pela vida e medo dela. Sem ele, nossas tardes eram monótonas. Eu, o Luisinho (era como me chamavam), por outro lado, era muito ingênuo e extremamente tímido!

Todas as idéias malucas sempre partiam do Cássio, fertilizavam a imaginação de nós todos, e se espalhavam nas nossas brincadeiras como praga prazerosa, como pólvora incendiada que iluminava nossas tardes. Eu apenas seguia o fluxo do grupo, embora quase sempre relutante e cheio dos pudores de um filho de ministro metodista modelo anos 60, e que achava que podia e devia fazer tudo certinho, sem deslizes comportamentais de qualquer espécie e sem deixar margens para críticas alheias. Tudo pela honra da "firma", i.e., a igreja. Afinal, eu era não somente o “dono” da cancha, mas também o filho do Reverendo da cidade!

Um dia, o Cássio teve uma idéia, digamos, genial. Nós cinco montaríamos uma cilada para o Ney, filho de um oficial do regime de ditadura militar iniciado em 64, do tipo que apresentava a carteira de oficial-militar e ía logo dizendo, "Sabe com que você está falando?"

Ney era tido por nós como o filhinho de papai da rua, de quem ninguém de nós conseguia ser amigo por razões sociais e econômicas. No que tangia a mim, havia uma razão adicional da qual eu sequer tinha consciência naquela época -- a ideológica. O pai dele fazia questão de que se mantivesse afastado do filho do pastor metodista que recebia em sua congregação insurgentes ao regime militar.

Riquinho, ranzinza, gordinho, dentuço, cabelo ruivo cortado semanalmente ao estilo Recruta Zero e, o que é pior, Ney era a representação extrema do "Caxias-CDF" da cidade. Ele era o único da vizinhança que, por pura determinação dos pais, estudava à tarde e num colégio particular para, acima de tudo, não ter que se misturar com os meninos pobres do bairro. A razão secundária era pra não ter que repartir os muitos brinquedos de último lançamento da época. Eram muitos, porém todos brincados solitariamente, tornando-o egoísta e recluso.

O plano do Cássio envolvia até um treinamento divertido. Enquanto o Ney não passasse por ali vindo da escola de lancheira de plástico pendurada no pescoço e óculos tipo fundo de garrafa, a gente se esconderia atrás do monte de areia branca acumulada do lado de dentro do muro.

Assim, qualquer transeunte que se atrevesse a passar pela frente dos muros da igreja, levaria uma chuva de areia. Escondidos, ficaríamos quietinhos pra ouvir o barulho dos passos de quem quer que seja que transitasse pela calçada e, intuitivamente, saberíamos a hora exata de jogar a areia e nos escondermos imediatamente.

Fizemos isso com algumas poucas pessoas que, por mais que tentassem, não conseguiam saber de onde vinham os jatos de areia e seguiam murmurando pelos ares, balbuciando palavrões típicos de humanos afrontados, o que incluía, é claro, referências desonrosas às nossas inocentes mãezinhas.

Ríamos à beça, cada um a seu estilo. O Nícolas, por exemplo, filho de italianos provavelmente fugidos de Benito Mussolini, quando muito alegre ou muito nervoso, lançava a mão na cabeça e enrolava com dois dedos uma mexa qualquer de cabelo. O Edson ficava coçando o saco por cima do calção tipo sanfona, como se aquela nossa mais recente brincadeira se traduzisse, pra ele, em deleite genital. A Matilda pulava amarelinhas imaginárias enquanto ouvia as asneiras que dizíamos, e o Cássio se estirava na areia às gargalhadas. Ficávamos longos minutos comentando os detalhes do último "episódio arenoso", nos entusiasmávamos com a eficiência do plano, e logo focávamos n'outra vítima qualquer que se aproximasse.

“Olha! O 'bolha' do Ney está vindo!”, disse a Matilda com olhos brilhantes e saltados, cabelos amarrados ao estilo Maria Chiquinha, e tom de menininha maligna. Espiamos rapidamente pra vê-lo terminar de dobrar a esquina lá longe, e nos escondemos em seguida. Ficamos quietinhos e esperando a longa caminhada do Ney, geralmente em câmera-lenta, em direção à humilhação que jamais havia experimentado até então.

Cada um encheu de areia seca e fina as duas mãos que formavam uma só concha. O Cássio, contudo, sabe-se lá por que cargas d’água, sem que soubéssemos até então, pegou um tijolo partido ao meio, daqueles antigos, pesados e massudos, dando "sopa" bem ao lado dele.

Esperamos por um breve momento apenas, e em poucos segundos ouvimos passos rápidos e firmes. Por uma fração de tempo, baseado apenas no que ouvia, mas não via, pensei comigo: “Minha nossa! Como o Ney chegou rápido da esquina até aqui! E por que será que ele está usando tamancos e caminha tão rapidinho assim?” Interrompi este meu mais lúcido raciocínio quando lancei os olhos logo ao lado e vi Matilda deitadinha, com um lado do rosto descansado na areia e extendendo lenta e verticalmente o dedo indicador contra os lábios, como que dizendo pra todo mundo ficar quietinho, enquanto se segurava pra não rir.

Já bem treinados para saber da proximidade do “alvo” apenas usando a audição pra saber a hora de atacar, lançamos a areia que, obviamente, seguiu com o tijolo atirado pelo criativo Cássio. Ouvimos apenas dois sons, seguidos de um silêncio estarrecedor que pareceu uma eternidade, e depois percebemos que alguém vinha correndo na direção da vítima. O primeiro som foi o do impacto seco e tosco do tijolo naquilo que soou ser a cabeça de alguém. O segundo, mais apavorante, foi o de um gemido prolongado.

Fiquei intrigado e levantei a cabeça. Vi que o Ney vinha correndo esbaforido, com os braços abertos, com pernas que quase se trançavam com a força das curvas que precisavam fazer em função da gordura por entre as coxas, sacudindo a barriga como uma porca prenha e cheia de leitãozinhos, e com a lancheira se espalhando por todos os lados ao redor do pescoço. Percebi a palidez dele e, por um instante, pensei: “Hummm... Se ele está ainda no meio da quadra, correndo pra perto de onde estamos, quem terá sido acertado?”

Meu pensamento foi, uma vez mais, interrompido. Desta vez pelos gritos do próprio Ney: “Acudam! Acudam! Mataram uma velhinha!” Nos levantamos todos e, tomados de pura curiosidade infantil misturada ao medo, à ingenuidade e ao desespero, olhamos pra ver quem era.

Era mesmo uma velhinha de tamancos novinhos, nocalteada e estirada, com um talho enorme na altura da testa, uma sacola de sapé ainda presa ao braço cheia de pães d'água (também chamados de pães "bundinha") e duas longas bisnagas frescas (pães "bengala") que se projetavam de dentro da sacola como duas torres gêmeas.

Os visinhos, a maioria deles nossos pais, correram pra ajudá-la, diante da convocação do Ney, a quase vítima que, repentinamente, se transformou no herói esbaforido da hora. Em poucos segundos, meus amigos fiéis viraram “fumaça”, exceto pelo Cássio que, naquela altura, embora trêmulo, tentava inspirar ser o bravo escudeiro que nunca foge da responsabilidade pessoal. Eu, por outro lado, fiquei onde estava porque minhas pernas se recusavam a obedecer ao comando do meu cérebro momentaneamente apequenado.

Congelado, paralisado e atônito diante de tal tragédia, comecei a usar as únicas coisas que, apesar de travadas e trêmulas em meio às muitas engolidas secas, ainda funcionavam em mim: os lábios e a língua. “Não fui eu! Não fui eu!”, repetia inúmeras de vezes. "Quem foi, então, Luisinho?”, gritou alguém sob o olhar dos presentes.

"Diz pra eles, Luisinho! Diz! Diz logo que foi você! Assim a gente resolve isto tudo rapidinho… vai, Luisinho!", dizia o Cássio com olhos a esta altura desesperados e fitos em mim, como que dizendo “Me livra dessa, camarada! As consequências pra mim serão muito maiores se você disser que fui eu mesmo!”

Cássio era filho de pai violento, cujos abusos deixavam marcas visíveis e decifráveis. Sabíamos quando ele havia apanhado de cabo de vassoura, de salto de sapato, de fio de ferro, de fivela de cinto, aos chutes ou a murros. Ele andava sempre apegado ao irmãozinho, como que tentando protegê-lo de todo e qualquer mal que lhe pudesse ocorrer. Numa ocasião, assisti a uma cena em que o Cássio empurrou o irmão para trás de si, posicionando-se entre o pai e o irmão mais novo. Apanhou a surra do irmão, mas não desgrudou dele.

A velhinha acordou logo, zonza e meio confusa, mas rapidamente evoluiu sua melhora à medida em que cuspia areia e a traduzia em olhares de compaixão inexplicável por mim e por meu amigo Cássio. Para a nossa completa surpresa, os olhos dela pareciam pacíficos, sem qualquer demanda aparente em desvendar quem de nós dois era culpado por ter-lhe dado um tijolaço. Parecia já saber quem o teria feito.

Num dado momento, conquistado pelos olhos bondosos da velhinha, segui repetindo o que vinha dizendo dezenas de vezes, esquecendo-me, contudo, de usar a negativa “não”. Fitado por olhos que saltavam de bondade no meio do sangue que ainda corria da testa, passei a repetir: “Fui eu! Fui eu!”

"Não foi não, gente!", dizia o Ney com determinação. "Eu sei quem foi... Eu vi quando atiraram a pedra!" O olhar de todos se dividiam entre o Cássio e eu. Por um momento, cessei de repetir o inseguro e apavorante "Fui eu!", passando a ter pensamentos que viajavam no mundo das possibilidades:

"Se eu lhes revelar que foi o Cássio, ainda hoje ele será espancado pelo pai, e amanhã, se vier brincar, estará todinho quebrado. Mas se eu continuar dizendo que fui eu, a vergonha que virá sobre o meu Reverendo pai será enorme e mais grave do que levar as garantidas palmadas ardidas. Meu Deus! Tenho duas possíveis tragédias sequentes nas palmas destas minhas mãos ainda sujas de areia branca. Que opção devo escolher?"

(A história continua!)

Luís Wesley

3 Comentários:

Blogger Thaís disse...

Adorei as peripércias dos meninos levados.. hihihhi!! Tô esperando a próxima!!
Beijoss :)

12:32  
Blogger Liana disse...

Como SEMPRE, histórias inundadas de sensibilidade. Sensibilidade esta que está presente nas palavras porque está impregnada na vida.Parabéns.
P.S. Estou curiosa para saber o final da história!

22:44  
Blogger claudia disse...

Hummm..... menininho peralta, que sufoco hein!!!! Por essa não esperava-rs. Espero saber logo o final de toda essa aventura. Bjus

14:59  

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