L. Wesley's COMMUNITÀS

Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

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Nome: Luís Wesley
Local: Atlanta, GA, United States

Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

O discurso de Guaicaipuro Cuauhtémoc.

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaipuro Cuauhtémoc, de descendência indígena, defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Européia. A conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaipuro Cuauhtémoc. Eis o discurso:

"Aqui estou eu, Guaicaipuro Cuauhtémoc, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a ‘descobriram’ só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país -, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.

Consta no ‘Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais’ que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano ‘MARSHALL MONTEZUMA’, para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos? Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar.

Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra. Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue? Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas. Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa. Agora resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais. Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.

Publicado no Jornal do Comércio - Recife/PE


Viver é bom...


Há momentos em que a vida nos vem tão avassaladora, dando a impressão de nos ter metido num tunel escuro, profundo, assombroso e indefínivel. Dentro dele, na escuridão, a gente perde a clareza da visão, e a mente se permite congelar.

Mas há, sim, momentos que são pra sempre. Eles "colam" na alma com tal firmeza, intensidade e durabilidade que nem os doces, nem os sais, nem os ácidos, nem a
escuridão da vida possuem o poder de removê-los ou deformá-los. Quem não os possui? Eu os tenho de sobra.

São momentos que geram memórias que vão muito além das simples lembranças. Formatam o dia-a-dia com irresistível força, com a deliciosa subversão do afeto impregnado nas paredes do coraç
ão. Destes momentos que são pra sempre e que trazem saudade da boa é que colho a certeza de que viver é bom e amar vale a pena.

Mas o melhor de todos os momentos é aquele através do qual se pode enxergar o fato de que o Eterno esteve e está com a gente!

Luís Wesley

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Domingo, Outubro 12, 2008

Reflexão sobre o meu “Auto-Exílio Eclesiástico”.


Há mais de um ano (julho de 2007) postei uma pequena nota neste blog, falando de minha transferência para a United Methodist Church e do que considero ser um auto-exílio eclesiástico. As reações foram intensas e interessantes, muitas de solidariedade e cheias de senso de justiça pela decisão tomada, e algumas poucas de certo espanto por eu aplicar a esta transferência o sentido de exílio. Não mudei a linguagem e considero ínfima a possibilidade de redefinir esta percepção. Contudo, já que também considero ser responsável de minha parte refletir sobre este auto-exílio, há algum tempo passei a fazer uma leitura bem mais positiva da experiência.

Foi re-lendo Paulo Freire que consegui substanciar esta nova leitura. “Para mim, o exílio foi profundamente pedagógico”, disse Freire, e completou: “Quando, exilado, tomei distância do Brasil, comecei a compreender-me e a compreendê-lo melhor”. Guardadas as enormes proporções de todos os aspectos de diferença entre o grande Paulo Freire e o insignificante Luís Wesley, vejo paralelos e diferenças entre a experiência dele e a minha.

Uma diferença básica é que Freire foi tacitamente “sentenciado” pela ditadura militar a se retirar do Brasil e proibido de entrar na Espanha e em outros países por conta de seu discurso revolucionário de uma pedagogia que conscientiza e resgata pessoas da alienação para formatarem seus próprios caminhos de transformação social, enquanto eu, como bem defini, decidi experimentar um auto-exílio eclesiástico por conta do discurso das relações ministeriais da igreja, mas nunca fui proibido de voltar ao Brasil ou de, quando solicitado, dar minha contribuição para a igreja brasileira.

Uma similaridade, contudo, está na pedagogia que o exílio faz gerar na gente: “comecei a compreender-me e a compreendê-lo melhor”, observou Freire. Olho para a minha própria experiência e vejo a mesma coisa. Foi quando me distanciei do que me consternava no Brasil que comecei a compreender melhor a minha própria condição enquanto pessoa e, é claro, enquanto ministro do evangelho. Num primeiro momento, permiti enxergar-me num espelho imaginário da realidade, e o que vi me trouxe sentimentos ambígüos. Vi minhas virtudes e minhas misérias mescladas num só mosaico de cores; contemplei minha independência, bem como minha flagrante vulnerabilidade; curti minha liberdade, e me deixei doer na minha distância; apreciei meu crescimento, e lamentei algumas desconexões decorrentes justamente do fato de ter crescido; celebrei minhas conquistas, e chorei meus fracassos.

Surgiu, então, uma consciência crítica e libertadora. A consciência crítica nasce da possibilidade de a gente avaliar o que somos e realizamos até o presente, reconhecer a real contribuição que se deu para o bem comum e, desta forma, fomentar um futuro mais sintonizado com o que se é, de onde se veio e para onde se pode ir. Na verdade, sei pouco ou quase nada sobre meu futuro, mas tenho absoluta consciência de onde vim e a Quem pertenço. A libertação vem, por exemplo, quando se percebe, na prática, que eu sou Protestante-Metodista, mas Deus não é; que sou evangelical de missão integral, mas Deus não o é; que sou um brasileiro morando na América, mas Deus não é nem brasileiro, nem americano, nem israelita... Deus é tudo em todos.

Neste meu exílio também passei a compreender melhor o Brasil e a Igreja. Há uma certa verdade prática no ditado “Quem vê de longe, vê melhor”, e esta se aplica ao meu próprio processo de vida. “Foi exatamente ficando longe [do Brasil], preocupado com ele, que me perguntei sobre ele”, disse o educador dos educadores numa entrevista ao repórter Ricardo Kotscho. E, como experimentou Freire, me pergunto sobre o que o país e a Igreja fizeram com parte da minha geração e da geração mais jovem, e o que será das gerações que hoje abraçam formas mais sutís de alienação.

Na época da ditadura militar (1964-1985), o sistema suprimia a consciência crítica e a comunicação pública desta. Hoje, num país de liberdades democráticas que busca exorcizar de si mesmo o caudilhismo e o “Sabe com quem você está falando?”, a religião se tornou um dos maiores e mais perigosos redutos de formação de pequenos déspotas tupiniquins. Sobram exemplos de reinosinhos particulares, de troninhos de plástico, de ditadurasinhas pretensamente legitimadas por oficialidades institucionais e/ou por discursos teológicos alegadamente bíblicos, mas em nada consistentes com o evangelho puro e simples do Jesus de Nazaré. Este assunto, entretanto, mereceria um outro longo e delicado “post” neste blog.

Ao assumir um contexto provisório, embora, no meu caso, provisório-de-longo-prazo, passei a ter uma melhor compreensão do que fiz, além de “me preparar para continuar fazendo algo fora do meu contexto e também me preparar para uma eventual volta ao Brasil”, como definiu Paulo Freire. Afinal, enquanto exilado, a gente tem que se inserir num novo contexto sócio-político e religioso, “fazendo algo em que você acredite, (...) algo através de que você se sinta oferecendo uma contribuição, por mínima que seja, a algum outro povo.”

O caminho, então, passou a ser o de negar-me o direito de fazer juízos de valor (i.e., julgar sobre o que possa ser correto ou incorreto baseado apenas no meu ponto de vista, classificando, somente desta perspectiva pessoal, o que seja bom ou mau, desejável ou indesejável) para dedicar e focar minhas energias exclusivamente no labor missiológico (por si mesmo dialético e multi-disciplinar). Isto me abriu avenidas para aprender ainda mais a viver uma virtude fundamental para qualquer pessoa, qualquer povo, qualquer igreja, qualquer espécie de relação: a tolerância.

Somente pelo caminho de uma tolerância responsável, graciosa, generosa, compassiva, misericordiosa e redentora é que se supera preconceitos e negatividades, e se aprende a “conviver com o diferente para, no fundo, brigar melhor com o antagônico” (conf. Freire, itálicos meus). No meu caso, não me refiro somente a preconceitos culturais, mas também a diferenças relacionais de caráter, personalidade, temperamento, postura e escolha.

Neste contexto, o exílio também me ajuda a redescobrir caminhos que superam obstáculos pessoais, institucionais e culturais. E isto só foi e só é possível quando me convido de novo e de novo a olhar no espelho da graça do Eterno e em nada colocar a minha fé senão em Cristo, e Cristo tão somente.

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As frases de Paulo Freire citadas aqui estão em Essa escola chamada vida: depoimento [de Paulo Freire e Frei Betto] ao repórter Ricardo Kotscho. São Paulo, SP: Editora Ática, quinta edição, 1985, p. 56.

Copyright © Outubro 2008 Luís Wesley de Souza

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