Fotos que "falam" o que a gaga-história não diz.
"Out of the blue", para minha absoluta e agradável surpresa, recebi ontem duas fotos enviadas pelo Rev. Edinei de Souza (capelão do Hospital Evangélico de Curitiba) que, juntamente com a Renilda, examinava o acervo de fotos do Bispo Wilbur e dona Grace e encontrou, segundo ele, algumas "relíquias". Segue a minha grata resposta ao Edinei.
Caro Edinei,
Paz e bem!
Que surpresa inspiradora e agradabilíssima, meu amigo! Conhecia as fotos, mas não possuía cópias destas. Permita-me, pela necessidade de se colocar um olhar mais desdobradamente extenso e profundo nelas, aproveitar para visitar outras fotos que ainda dizem o que a história tartamuda não diz.
A primeira, que mostra meus pais, Rev. Samuel & Edi, trata-se de uma das fotos que tiraram logo após o casamento. Ela, órfã de pai quando ainda "meninica", chegou a mendigar com a mãe pelas ruas de São Paulo, para depois ser, por longo tempo, criada e educada pelos padrinhos e pelo casal evangelista metodista Joel & Dasdores Medeiros. Terminou o primário e o ginásio somente depois de se casar e ter os quatro filhos. Organista, olhos azuis suaves, olhar meigo, passos curtos e rápidos, mãos hábeis, coração e hábitos simples, ela possuía uma espiritualidade solidária, apaixonada por Cristo e pelas pessoas. Costumava organizar festas e peças de Natal com presépios vivos, cujos personagens, para a consternação dos racistas igrejeiros, eram negros. Isto mesmo, em vários presépios da D. Edi, o menino Jesus, a Maria, o José, os pastores e os magos eram da raça negra e, por vezes, representados por crianças abandonadas em orfanatos. Ela morreu em conseqüência de um fungo que adquiriu enquanto trabalhava, como voluntária, com crianças de rua.
Ele, descendente de uma escrava que se casou com um português, filho de sitiantes e órfão de mãe desde aos oito anos de idade, estudou no Colégio Londrinense sob o cuidado do jovem médico João Henrique Stephen e esposa, e sob a tutoria do Rev. Dr. Zaqueu de Mello (legendário pastor presbiteriano que, mais tarde, tornou-se deputado federal pelo Paraná), a quem serviu em tudo e por quem foi entusiasticamente encaminhado para um seminário presbiteriano.
Neste seminário, um professor "ameba" o declarou, intelectualmente, incompetente e, organicamente (saúde), desqualificado para ser ministro protestante e sugeriu que, ao invés disso, fosse vender frutas na Praça da Sé, São Paulo. De coração simples e quase sempre ingênuo, fez o que o professor sugeriu. Contudo, numa certa noite, sonhou que alguém entrou em seu quarto de pensão, acendeu a lâmpada de soquete borboleta pendurada no centro do quarto e disse: "Samuel, não foi pra isso que Eu te chamei!" Em sobressalto, ele acordou, notou a porta aberta e a luz acesa, correu para a praça, vendeu a banca de frutas (a foto acima é apenas ilustração não-verídica) e foi procurar um homem de quem ouvira falar que era bondoso e acolhedor: Bispo Isaías Sucasas.
O casal Sucasas o acolheu em casa por vários meses, cuidou de sua saúde, ensinou-lhe o "português urbano", despertou nele o gosto pela leitura de literatura clássica e eclética e, depois, o encaminhou para a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, onde foi recebido sob uma condição: seria responsável por lavar os banheiros, desentupir latrinas e manilhas e limpar as fossas da instituição. Nunca jamais fora chamado de vagabundo até os 80 anos de idade... mas esta é uma outra história que sequer merece ser contada.
Estes dois aí na primeira foto são responsáveis por nada menos que (1) minha formação e identidade na fé cristã, por (2) minha experiência de arrependimento e conversão pelo poder redentor e regenerador do Jesus Cristo de Nazaré crucificado por meus pecados, por (3) minha consciência de continuidade de avanço nos estudos, e por (4) minha iniciação na experiência internacional. Esta carta seria extensa demais -- daria um livro! -- se eu narrasse tudo o que quero dizer com isso. Minha mãe foi minha primeira discipuladora, da época em que morávamos em Jericó (1959-1964), numa Igreja Metodista plantada numa colina das montanhas da Serra do Mar, na região do Vale do Paraíba, onde vi meu pai esconder, por vários dias, líderes da Confederacão de Jovens da Igreja Metodista e da Federação de Jovens da Terceira Região Eclesiástica. Meu pai construiu em mim a cultura da dedicação exclusiva ao Reino, ainda que tivesse que correr os riscos de dar cobertura a perseguidos políticos.
Numa certa ocasião, vi meu pai prender um bandido fugitivo no escritório pastoral da Igreja de Jericó, orar pela conversão dele e, no dia seguinte, convencê-lo de se entregar à polícia para, daí, levá-lo no lombo de uma mula para Cunha, a 18 km do sertão onde morávamos. N'outra ocasião, ouvi minha mãe contar sobre meu pai que, montado na mesma mula, enfrentou gente armada na mesmíssima estrada para Cunha, porque ele resolvera, após várias pregações e muita advertência, denunciá-los ao poder público por zoofilia. Com a coragem de quem é homem-macho e a ousadia de quem é homem-de-Deus, mesmo sob ameaça à mão armada, o Rev. Samuel passou cavalgando sem titubear por meio deles dizendo que era "isto mesmo que iria fazer, quisessem ou não, para o bem deles próprios, de suas famílias, dos animais e da sociedade." Isso tudo no início dos anos 60 e no Vale do Paraíba, onde e quando uma denúncia dessas poderia significar-lhe a morte. É mole?
Foi idéia dele colocar, em honra ao fundador e mentor do movimento metodista, o nome "Wesley" na seqüência dos primeiros nomes de todos os filhos, coisa que se repetiu no que tange aos nomes dos sobrinhos e netos e, ao que parece, dos bisnetos.
Dona Grace Smith costumava colecionar fotos dos pastores e esposas. Minha mãe deve tê-la entregue à Dona Grace assim que a conheceu no Concílio Geral (Rio, 1965) que elegeu o Rev. Wilbur K. Smith como bispo da recém-criada Sexta Região Eclesiástica (Paraná e Santa Catarina), para a qual meu pai se transferiu, logo de início, sendo nomeado, imediatamente, para a linda Porto União, SC.
Foi lá que, ainda menino, tive o privilégio e a honra de conhecer alguns dos excelentes representantes dos "anos rebeldes", gente que não abraçava os comprometimentos ideológicos e políticos de certos representantes da Igreja Metodista no que tangia ao estado vigente criado pelo golpe militar de 1964 (que instituiu a ditadura): Herman Oberdick, Günter Bart e Nelson Tomasi. O Herman Oberdick, cujos pais moravam em Porto União/União da Vitória, vinha em casa para conversar com meu pai e, enquanto isso, fazia pandorgas pra mim na varanda da casa pastoral. Eu ouvia todas as conversas, e sabia, por esta via, das crises na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, e do brutal e inconcebível fechamento desta. Depois do Porto, fomos para a acolhedora Santo Antônio da Platina, PR.
Quanto à outra foto que você me enviou (a que está à esquerda), com quase toda a família (neste caso aqui, com exceção da Léa, a filha mais velha, que tinha se casado havia pouco e que, se não me falha a memória, estava em lua-de-mel), foi tirada pelo fotógrafo profissional platinense, “Seo” Tanko, na sala da primeira casa pastoral da Igreja Metodista de Santo Antônio da Platina, PR, às vésperas da nossa partida para o campo missionário do Equador. Nesta foto, eu estava com 15,5 anos, a Leila (à minha esquerda) devia estar com, aproximadamente, 12, e a Lêda (em frente aos nossos pais) com 9, se não me engano. Note a prateleira do meio, feita por meu pai em meio aos assovios, ao estilo "anos dourados".
A família missionária fora cedida pela Sexta Região, enviada pela Igreja Metodista do Brasil, comissionada pelo CIEMAL (Consejo de Iglesias Evangelicas Metodistas de America Latina), e sustentada pela GBGM-UMC (General Board of Global Ministries of the United Methodist Church, U.S.A.), sob a supervisão de um bispo que é quase uma lenda: Sante Uberto Barbieri.
Filho de “pais anarquistas italianos, amantes da liberdade e lutadores pela justiça” (metodistaonline.com), o Bispo Barbieri era órfão de nacionalidade, razão pela qual se definia como “um cidadão do mundo”. Falava 8 línguas até quando o conheci. Por aqueles que o conheciam e o admiravam, ele era tido como “Cidadão do Mundo & Cidadão do Reino”. Grande parte de sua vida foi vivida no Brasil, e, a partir dos 19 anos, dedicada à Igreja Metodista. Entretanto, após sofrer as agruras perpetradas pela politicagem eclesiástica do baixo clero metodista da época, foi-se embora para servir o Reino de Deus no Uruguai e na Argentina, onde se tornou bispo da IM.
O Bispo Barbieri -- de vida simples e marcante sabedoria acessível, de impressionante conhecimento geral e espiritualidade cristocêntrica, de extensa experiência e percepções globais -- possuia uma visão integral do evangelho e da missão. Ele formatou minha resposta ao chamado ministerial e deixou, na minha memória e cosmovisão cristãs, as mais doces inspirações que um bispo seria capaz de transferir para um adolescente extremamente tímido, que vivia longe de seu país e que, no entanto, já se entendia engajado em experiências transculturais e apaixonado pelo mundo. Por exemplo, foi dele que ouvi, pela primeiríssima vez na vida, expressões como: "O evangelho é para todos os seres humanos e para o ser humano como um todo" e "Missão global e holística". Lembro-me de ter-lhe perguntado o que significava a palavra "holística", e, enquanto caminhávamos lentamente para comprar bananas na feira-livre de Santo Domingo de los Colorados (ele amava banana nanica!), ouví-lo responder com a paciência e com a simplicidade de um vovô dotado de intuição pedagógica que enche sua resposta de exemplos e histórias de vida.
Meus pais e irmãs permaneceriam por alguns anos no Equador e, depois, seguiriam para a Colômbia, onde o Rev. Samuel se tornaria Superintendente Geral (o equivalente a bispo) da Igreja Metodista colombiana. O “nosso” Bispo Wilbur K. Smith, juntamente com a D. Grace (ambos Asburyanos), foi o único bispo metodista brasileiro a visitar a família missionária. Muito antes disso, nos anos 60 e 70, Dona Grace foi responsável por encorajar minha mãe a continuar estudos e se tornar normalista, alfabetizadora e professora. O Bispo Wilbur costumava nos contar sobre o impressionante avivamento de 100 dias ininterruptos ocorrido no campus do Asbury College e Asbury Theological Seminary em 1970. (Uma série de ducumentários e testemunhos estão disponíveis no YouTube.Com). "Foi como se os céus se soltassem a partir de um culto das 10 da manhã do Asbury College", dizia o Bispo Wilbur, repetindo o slogan comumente usado até hoje para descrever o acontecido, o que plantou em mim uma semente que me faria, mais tarde, tornar-me um Asburyano também.
Tornei-me membro da Igreja Metodista Central de Curitiba (1986), onde conheceria aquele que se tornou o meu maior e melhor amigo, discipulador e mentor: Douglas R. Spurlock, um genuíno companheiro na caminhada, do tipo "amigo mais chegado do que um irmão" (Provérbios 18:24b) e que se transformam em "coisa (sic) pra se guardar debaixo de sete-chaves dentro do coração" (Milton Nascimento). Pena não ter uma foto virtual do Douglas & Joyce comigo aqui. Quando o conheci, ele era missionário do SEPAL (Serviço de Evangelização Para a América latina). Juntos, fundamos a SETE (Sociedade de Estudantes de Teologia Evangélica) e, através desta, conheci, convivi (ocasionalmente) e aprendi muitíssimo do Dr. Russell Shedd, expositor bíblico e escritor. Mais tarde, nos anos 90, juntamente com a esposa Joyce e os seus irmãos, Douglas Spurlock criou uma fundação que me sustentou durante meus estudos na University of Kentucky (1996) e na E. Stanley Jones School of World Mission & Evangelism of Asbury Teological Seminary (1997-2001) e, depois, como professor e co-fundador da Faculdade Teológica Sul Americana (2001-2004).
Retomando, de Curitiba segui para Maringá em 78, enviado pelo Bispo Wilbur como o primeiro aluno “pré-teológico” da IM. Fui uma espécie de cobaia, é claro, mas foi uma das melhores coisas que me aconteceram na minha formação! Morei com o Rev. Valdir Peres Marins e Dona Elda, com quem aprendi a virtude de ver o Reino além e apesar da igreja. Eles me apresentaram para gente muito querida, dentre eles o Pr. Paulo César Bornelli, dentista e ex-pastor presbiteriano renovado, que me influenciaria em minha percepção de como se pode e se deve "fazer tendas" enquanto se serve a Deus no ministério da igreja. Bornelli também me ensinou a ver a Deus como Pai e a entender melhor o que significa ser discipulo do Cristo da Galiléia.
Depois, fui para a Faculdade de Teologia em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, SP. De lá fui nomeado pelo Bispo Richard dos Santos Canfield para três igrejas: Apucarana, Arapongas e Jaguapitã. Deixei amigos eternos em Apucarana. Recebi depois novas nomeações: Florianópolis, Central de Londrina e Santo Antônio da Platina, onde passaria um tempo delicioso de proximidade com meus pais.De Santo Antônio fui para Niterói por três bons anos (1993-1995) para trabalhar como Diretor Executivo Nacional da AEVB (Associação Evangélica Brasileira), na época presidida pelo
Rev. Caio Fábio de D'Araújo Filho que, além de me ter convidado e dado o privilégio de aprender e trabalhar pessoalmente com ele, também abriu as portas do coração. Com extrema e inesquecível afabilidade, valor e respeito, o Caio pavimentou avenidas já construídas em mim para a vida e o mundo cristão brasileiro e internacional, justamente numa época em que eu ainda me submetia a intenso acompanhamento oncológico e sequer sabia se viveria o suficiente para ver meus flhos crescerem e se tornarem adultos. Foi por causa do Caio que ouvi falar intensamente do Dr. Leighton Ford, cujo ministério bancava os retiros dos 40 pastores (início dos anos 90) que compunham um grupo do qual eu fazia parte. 
Fui para o Asbury e, lá, encontraria muita gente de Deus: Howard A. Snyder -- amado professor, orientador e mentor acadêmico, teólogo, eclesiólogo e historiador preferido, ex-missionário da Igreja Metodista Livre no Brasil --, Darrell Whiteman, Samuel Kamaleson, George Hunter III, Maxie Dunnan, Mathias Zahniser e, é claro, B. David Dinkins, um homem bom, generoso, conselheiro encorajador e companheiro acolhedor.
Foi quando estava no Asbury que recebi três "awards" (prêmios) por excelência acadêmica conferidos pelo Leighton Ford Ministries e a Foundation for the Carolines. Tais "awards" me colocariam em relacionamento pessoal com o Dr. Ford, cunhado e companheiro de trabalho do Rev. Billy Graham. Após receber o terceiro "award", Leighton me convidaria para fazer parte do seu grupo pessoal de mentoria. Encontramo-nos à cada ano nas montanhas da Carolina do Norte, e deste grupo desejo jamais sair. Leighton Ford é um artista da alma e outro importante companheiro na jornada.
Minha vinda para a Emory University, Candler School of Theology, onde procuro dar minha contribuição à Igreja em várias partes do mundo através de docência no campo da missiologia, tem tudo a ver com duas pessoas: o conhecido historiador, ministro e teólogo wesleyano, Dr. Russell Richey, reitor da Candler na época, e a pesquisadora e escritora, Dra. Elizabeth M. Bounds, coordenadora da Divisão Graduada de Religião da Emory. Bounds procurava alguém que representasse o perfil desejado pela universidade para fazer um pós-doutorado em Teologia Prática e Práxis Religiosa, e Richey procurava alguém para tornar-se o catedrático da área de missão e evangelismo na Emory. Apesar de não me conhecerem pessoalmente
O Dr. George Morris, na época já aposentado, embora cobrisse temporariamente a saída do ex-catedrático da área, foi fortemente usado pelo Eterno para me convencer a cessar meu envolvimento com alguns dos projetos, a meu ver, mais relevantes que eu tinha no Brasil (FTSA e Instituto Jetro) e vir para a Emory. Ao Dr. Morris devo também a retomada da auto-estima, reconstruída num contexto de companheirismo, de muita conversa, de oração e de encorajamento para ver mais além de mim mesmo e dos "caixotes-eclesiásticos" e olhar para a vastidão do mundo. Ao fazer isto, ele sempre me lembrava de dois dizeres de John Wesley: "O mundo é a minha paróquia" e "O melhor de tudo é que Deus está conosco".Toda esta jornada junto aos meus pais, amigos "do peito", tutores, mentores e até de gente desconhecida, bem como TODOS os fatores de formação familiar, trajetória de vida, ministério cristão, estudos, relacionamentos etc, não se trata de mérito pessoal meu. É, definitivamente, obra generosa e graciosa do Eterno -- Pai, Filho e Espírito Santo--, cuja Soberania não se limita nem se aprisiona a qualquer espécie de falha humana ou a "borras" institucionais. Falo do Deus que, melhor do que tudo, por Sua graça e misericórdia puras, também não se prende às minhas muitas imperfeições ou idiossincrasias, sejam estas intelectuais, morais ou relacionais. Ao senhorio deste Deus Eterno me dobro e digo: "Prevaleça em mim o Teu 'sim' ou o Teu 'não', mesmo naquele algo sobre o qual eu reluto abrir mão. Seja o meu sim uma resposta singela aos Teus nãos, e venham os Teus sins como tesouros nas minhas mãos" (verso de poesia de minha autoria, em maio de 2008).
Digo isso tudo para expressar o que as duas simples fotos que me mandou representam e “falam” a respeito dos meus pais, da família, e a respeito de minha trajetória. A segunda, em particular, sinaliza uma caminhada de vida que se desdobrou em muitos "tomos". Afinal, a ida e estada no Equador desenhou minha jornada em várias etapas. Doces lembranças, acredite!
Com sincero apreço,
Luís Wesley
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