ISAQUE*, O AMIGO QUE NÃO MORREU.
Exame de uma morte
que não aconteceu.
A falsa notícia e a sincera reação.
“Wesley, você está sabendo que o 'Isaque'* foi assassinado?", me perguntou alguém ao telefone, com voz embargada, sabendo que isto seria mais uma das dores a serem absorvidas por mim nestes últimos meses.
Fiquei chocado com a notícia, tive ânsia de choro pela tragédia, rolei na cama a noite toda, trouxe à memória momentos bons, travei conflitos interiores em razão dos maus momentos de explícita intolerância da igreja em relação a aquele que tinha sido meu querido amigo, companheiro e colega. Afinal, seus muitos talentos, senso de chamado e desejos de servir a Deus no ministério não foram suficientes para superar a falsa moral e a incapacidade da igreja em lidar com os diferentes.
Memória útil e oração inútil.
Lembrei-me de seu admirável, sábio, culto, e saudoso pai, e de sua mãe e irmã. Trouxe à memória toda a história passada que presenciei do Isaquinho* na infância, adolescência e juventude, daquele menino tímido, estrábico, com óculos de lentes tipo fundo-de-garrafa, braços quase sempre cruzados para trás, humilde, educado, afável, polido e extremamente inteligente.
Orei por aqueles que estavam diariamente ligados a ele no momento de seu "passamento", pedi o consolo divino, e, além disso, indignei-me ao perceber que não havia comunicação formal sobre sua morte.
O caminho da vida.
Todo este pesadelo demorou 21 horas. Foi durante este período que corri atrás da informação para ter a certeza de que não estava lidando com uma falácia. Suspeitei que algo havia de errado e inconsistente. Liguei daqui dos EEUU pra algumas pessoas no Brasil, em busca de saber se e o que realmente acontecera. Falei com dois amigos comuns, mas eles sequer tinham ouvido falar de tal morte súbita e violenta.
Ao final, minhas suspeitas, torcida e desejo estavam corretos: o Isaquinho* esteve e está "vivinho-da-silva”, como se expressou a pessoa que me trouxe a confortante boa nova. Um amigo comum ligou para o celular dele na esperança de que, vivo ou "morto", o Isaque* atendesse. Atendeu. Graças a Deus, ele não morrera, não fora assassinado, e, é claro, sequer sabia de sua própria “morte”.
A indignação.
Misturado ao sentimento de alívio e perspectiva de vê-lo novamente, fui invadido por uma indignação quase insuportável. Fiquei pensando sobre de quem teria sido esta absoluta imbecilidade que fez começar esta estória maluca, que “matou” o Isaque* e acabou colocando alguns dos seus amigos-do-coração em povorosa, dor, luto, angústia e saudade.
Teria sido uma fofoca intencional, talvez para substanciar aquele tipo de tendência tragicômico-espiritual que precisa de anti-histórias, de “exemplos” do que acontece com aqueles que eram e que pertenciam, mas que agora, supostamente, não mais são nem pertencem, e que por isso merecem morrer se possível uma morte trágica e irrelevante? Teria havido alguma intencionalidade em gerar a representação de um mórbido imaginário punitivo, do tipo "tá-vendo-no-que-deu"?
A percepção.
Talvez tenha sido uma simples confusão, uma vez que houve, sim, uma morte trágica de um outro irmão querido que chegou a ser pastor, mas que vinha enfrentando lutas atrozes com a própria dependência química da qual havia saído quando se converteu ao evangelho.
C
As lições da morte que não foi.
Por outro lado, de quem quer que seja que tenha partido esta brincadeira idióta e de mal gosto, há lições a serem aprendidas aqui. A primeira e mais importante se relaciona com a pedagogia de se ter um amigo querido que “morreu”, com quem não mais se poderia conversar (ao menos não aqui e não agora), mas que reviveu na nossa memória, na nossa história, na nossa trajetória e jornada de vida.
A segunda lição tem a ver com a oportunidade que este fato gera de se fazer uma reflexão reconciliadora daquilo que ocorreu no passado. Neste particular, penso que a igreja, algumas vezes enquanto agente e porta-voz dos injustos julgamentos de caráter daqueles que “não se enquadram”, deveria rever suas práticas do passado e do presente. A igreja deve aprender a se arrepender enquanto instituição, bem como seus representantes, e não somente as pessoas simples que dela fazem parte.
A terceira lição é a de nos fazer refletir sobre esta absurda tendência de setores da igreja em punir os sinceros e promover os espertos. Chorei quando o Isaque* foi retirado do ministério pastoral nos anos 80, porque vi nele sinceridade enquanto outros se escondiam e se protegiam por detrás do escudo da mais deslavada esperteza e sofisma.
Ao que fora "morto", com afeto.
Ditas estas coisas pra aqueles que tem ouvidos que ouvem, quero dizer algo ao mais vivo dos amigos "mortos" de hoje. Assim, vai aqui uma palavra carinhosa a você, Isaque*: Gratíssimo por, uma vez mais, decepcionar os desejos ocultos das más línguas. Grato por estar vivo, meu amigo!
Grato por renascer e reviver dentro daqueles que o amamos, apesar das distâncias. Grato por traspassar tanto as lutas naturais da vida como as injustiças. Grato por sobreviver à dolorida experiência de ter que devolver à igreja o que ela lhe havia dado, e de manter, a todo o custo e ao longo destes anos todos, tudo aquilo que só o Eterno lhe deu e que ninguém possui direito e autoridade de tirar.
Grato por demonstrar que, ao contrário do que se quis inspirar no passado, você é capaz, sim! Muito mais capaz do que boa parte de nós que permanecemos no ministério. Parabéns pelas suas duas graduações (em Teologia e em Artes), por suas duas especializações (em Magistério Superior e em Educação), por seu mestrado (em Educação) e por seu doutorado (também em Educação). Parabéns por não precisar destes títulos todos pra se qualificar, por ser qualificado antes, durante, depois e apesar deles.
Grato por ser quem você é, Isaque*. Aliás, diga-se de passagem, no passado você esteve sob um juízo que foi justamente fruto de ser quem é. Hoje você continua sendo: "...tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada" (Friedrich Nietzsche, em O Andarilho).
Mais que tudo, grato por ter mantido a convicção sobre a Quem você pertence.
Luís Wesley
*Uso aqui o nome fictício "Isaque" para preservar a verdadeira identidade do personagem desta história.




