
Teólogos cristãos imaturos tem o péssimo hábito de achar que devem sempre dizer alguma coisa para, pretenciosamente, elucidar e explicar todas e cada uma das ocorrências da vida, boas ou ruins. A teologia madura, contudo, é aquela que se exige saber quando e como ficar em silêncio diante de situações experimentadas pelas pessoas.
A teologia sábia e experiente não se pretende ter ou ser resposta para tudo, seja no púlpito, no hospital, na literatura, no campo missionário, na célula, na mesa de bate-papo, no cemitério, durante uma visita ou num debate. O teólogo maduro, ao silenciar-se, confia plena e radicalmente no Espírito Santo, da mesma forma e na mesma medida em que confia n'Ele quando abre a boca.
Historicamente, a teologia e a proclamação têm sido narrativa e vernacular por natureza. Contudo, é também verdade que a impotência e a impaciência nos traem, notadamente quando estamos diante de quadros depressivos, desesperadores ou complexos. E é aí que o "não poder fazer nada" nos seduz e nos conduz à linguagem verbalizada, e, portanto, à possível subjetividade de palavras ditas ao léu, sem pertinência ou relevância alguma. A nossa lógica é que, se falhamos em dizer ou verbalizar alguma coisa, o silêncio santo de Deus também será
incapaz de comunicar à mente e ao coração das pessoas.
Ocorre, entretanto, que o Espírito Santo é aquele que perscruta novas formas de linguagem e novas subjetividades através das quais ele ouve, ora, geme e fala (Romanos 8:18-27), justamente por causa das nossas limitadas capacidades enquanto humanos. Isto inclui nossas doutrinas e tradições que, por espantoso que pareça a alguns, não conseguem capturar a totalidade de Deus, simplesmente pelo fato de que são produto da inteligência, da linguagem, do simbolismo, do pensamento e do engendramento humano. Nenhuma destas coisas é veículo adequado para a total compreensão do divino.
Não quero dizer com isso -- em absoluto! -- que nossas doutrinas ou sistematizações da fé sejam falsas. O que digo é que elas são inevitavelmente incompletas e, eventualmente, distorcidas quanto a revelar e comunicar Deus na experiência humana. Se queremos conhecer Deus e os seus pensamentos de forma mais ampla, embora ainda e sempre incompleta, temos que ir para além do que sabemos, ou do que pensamos que sabemos! Afinal, as melhores e mais fiéis tentativas de descrever Deus e a humanidade podem acabar sendo nada mais do que auto-interesse idólatra.
A "mulher do Aderbal" e os teólogos tagarelas
Não ser capaz de ficar calado quando o silêncio é necessário, é reproduzir, na teologia e na proclamação, a atitude da "mulher do Aderbal". Refiro-me ao quadro humorístico em que a esposa de Aderbal, pressupondo conhecer detalhes do que vai no pensamento do marido, coloca em seus lábios palavras que ele nunca pronunciou, gerando os maiores constrangimentos para o próprio Aderbal em relação aos seus amigos "ouvintes". Aderbal acaba por perder os amigos por causa daquilo que sequer falou, mas que, supostamente, fora colhido de seus pensamentos. Pior do que isto é que, ao final, ela própria sentencia o marido, dizendo: "Você fala demais, Aderbal!" Ele, contudo, não chegou sequer a abrir a boca, não disse uma só das palavras pronunciadas por sua esposa, nem muito menos pensou no conteúdo, na forma ou na substância do que fora atribuído a ele.
A revelação de Deus se silencia na voz do teólogo quando este se ocupa demais em falar. É como se o som da voz de Deus sofresse um eclipse causado pelas sombras que a precipitação e o excesso de palavras do teólogo impõe ou imputa à revelação. Por isso, é preciso aprender a se silenciar quando necessário, reconhecendo que há algo muito além do que a linguagem verbalizada pode comunicar e operar. Isto acontece quando o teólogo começa por admitir os limites do seu próprio pensamento teológico, e se posta silencioso, humilde, contrito e genuflexo na presença de um Deus que está acima e além das suas tentativas de descrevê-Lo.
Copyright © Junho 2006 Luís Wesley de Souza
Marcadores: OPINIÃO, REFLEXÃO, TEOLOGIA