As gravatas de Sobel, o que tem história

É sombria a situação em que encontra Henry Sobel, o ainda e sempre respeitado líder religioso, ex-presidente do rabinato da Congregação Israelita de São Paulo. Sobel fora flagrado e indiciado na Flórida, Estados Unidos, alegadamente por ter se apropriado de gravatas de grifes famosas sem tê-las pago nas respectivas lojas. Segundo avaliação clínica, ele sofre de cleptomania, uma doença psíquica cientificamente provada e definida como um impulso obsessivo e irresistível por roubar, sem qualquer necessidade ou motivo econômico[1].
Enquanto vítima de uma doença de desenvolvimento involuntário, Sobel nada tem a ver, em absoluto, com os larápios cínicos deste nosso país, nem muito menos com aquela rapinagem que se vale da mística e do poder político, econômico e religioso que possue para ter acesso às suas mais escabrosas lascívias.
O que se pode dizer, por exemplo, de líderes religiosos das mais variadas classificações confessionais, ou de empresários e políticos de matizes diversas que, apesar de nunca terem sido flagrados e indiciados, são verdadeiros latrocidas da dignidade humana? Já roubaram de tudo, exceto gravatas, não por serem cleptomaníacos -- o que explica o caso de Sobel! --, mas por serem homofágicos da dignidade dos outros, e megalomaníacos, famintos pelo poder e domínio sobre as pessoas, enquanto estas os servem como a deuses de “araque”.
Estou entre aqueles que tem compaixão por Sobel, que choram a dor de vê-lo sofrer sua própria história recente por causa de uma complexa patologia psíquica. Estou entre aqueles que lamentam que haja tantos de nós que jamais compreenderão as reais implicações íntimas, religiosas e sociais de ser cleptomaníaco. Estou também entre aqueles que aborrecem a injustiça na sociedade, particularmente, na política, na economia e na religião. Sim, estou no meio daqueles que estão fartos do abuso de autoridade, do abuso econômico, do importúnio moral e da impunidade geral.
A meu ver, o futuro de Sobel está incerto, sim, mas não o seu passado! Enquanto isso, o passado de certos líderes políticos e religiosos, cínicos inveterados, é absolutamente incerto, como também o presente e o futuro destes. Lamentavelmente, o respeitável rabino da comunidade judaica paulista está hoje em "maus lençóis", mesmo quanto ao que vier a se desenhar na continuidade do seu trabalho junto aos israelitas e à sociedade brasileira nos meses que se seguirão.
Afinal, diferentemente da rapinagem cínica e sem história, ele vai pagar o preço ético e moral pelas gravatas que se apropriou sob influência de uma doença sobre a qual ele próprio declara não ter suficiente conhecimento científico. Ao contrário dos cínicos, Henry Sobel possui um enorme legado para as futuras gerações, uma herança de seus atos em favor da sociedade brasileira ao longo das últimas três décadas. Este legado poderá trazê-lo à tona novamente.
Sobel tem história porque a fez. Os larápios da sociedade e da dignidade humana, não.
[1] The American Heritage® Dictionary of the English Language, Fourth Edition copyright ©2000 by Houghton Mifflin Company. Updated in 2003. Published by Houghton Mifflin Company. Available at http://www.thefreedictionary.com/Kleptomania.
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