
O que se deve aprender do pentecostalismo clássico brasileiro?
É possível escrutinar o movimento cristão mundial dos últimos 100 anos sem considerar o fenômeno pentecostal latino-americano e, particularmente, brasileiro? Seria um erro, certamente. Engano maior seria examinar o crescimento, expansão, experiências, essências e formas do pentecostalismo e não aprender dele. O movimento no Brasil, em particular o pentecostalismo clássico, representado pela Congregação Cristã do Brasil (CCB) e pelas Assembléias de Deus (ADs), porém mais marcantemente pelas ADs, têm desafiado e mudado os paradigmas de missão e redesenhado a compreensão do que significa ser igreja “própria da terra”, e isto não pode ser ignorado.
Em conclusão ao meu doutorado (2003), pesquisei a tese de que, em sua teologia e prática de missão, o pentecostalismo clássico tornou-se
autóctone (próprio da terra) no Brasil primariamente por sua habilidade em (1) contextualizar linguagem e métodos, (2) tornar-se cultural, espiritual e emocionalmente relevante ao povo brasileiro, (3) gerar uma identidade cristã conectada com as formas e significados culturais brasileiros, e (4) responder às necessidades de um povo em luta social e econômica. Com cerca de 95 anos de experiência de conexão e alcance do povo e no espalhar o evangelho por todo lado de maneira contextual, tanto em ambientes rurais como em realidades urbanas, o pentecostalismo clássico possui uma riqueza de importantes lições missiológicas. Estas precisam ser aprendidas por outros segmentos cristãos no Brasil, incluindo aqui os demais grupos pentecostais de todas as possíveis classificações tipológicas, o protestantismo histórico, e mesmo o catolicismo romano. Destaco apenas cinco delas.
A
primeira lição missiológica diz respeito à importância do povo “leigo” e, portanto, da ação ministerial popular na vida e na missão da Igreja. A experiência do pentecostalismo clássico no Brasil nos ensina que
a essência da formação de uma igreja autóctone que vivencia a fé cristã em contexto é sua radical confiança de que, sob o poder, capacitação e direção do Espírito Santo, pessoas “leigas” são capazes de fazer o trabalho e de dar forma, significado e conteúdo relevante ao que realizam. O clericalismo não ganha nem ênfase nem prioridade, embora forte liderança seja necessária para facilitar o ministério da igreja. O mais importante de tudo é que iniciativas “leigas” sejam bem-vindas, encorajadas e apoiadas.

Cristianismo autóctone funciona quando a inovação acontece sob a orientação do Espírito Santo através de pessoas “leigas” simples e abertas (mais do que clérigos!) que elaboram seus conteúdos de fé e comunicam o evangelho de maneira simples e culturalmente relevante. É por esta razão que a doutrina bíblica do “sacerdócio universal de todos os crentes”, que de alguma forma, notadamente pelo protestantismo histórico, tem sido negligenciada ou negada em seu total significado e implicações, precisa deixar de ser um discurso sem consistência na prática ministerial e missionária da igreja. Esta grande descoberta da reforma precisa ser traduzida em ação, o que implicará redesenhar o ministério da igreja como um todo. A igreja precisa voltar a confiar que o Espírito Santo é capaz de capacitar pessoas para fazerem o trabalho, e isto exigirá ser amplamente aberta e preparada para reconhecer o ministério dos “leigos”. A idéia sutil de que crentes considerados “ordinários” não são bons o bastante e nem suficientemente treinados para exercitar o ministério cristão precisa ser vencida e definitivamente abandonada. Da mesma forma, a arrogância clerical e a tácita concepção de sua suposta fundamental importância e superioridade sobre o “laicato” precisa ser confrontada e posta nos seus limites apropriados.
A
segunda lição nos aponta para a questão do uso de linguagem e métodos autóctones. O pentecostalismo clássico nos ensina que,
no processo de tornar “própria da terra” a fé cristã, linguagem e metodologia precisam ser determinadas e formatadas pelos participantes “leigos” de um dado contexto. É crucial que, desde o início, a comunicação do evangelho seja por via simples e culturalmente própria e relevante, tanto metodológica como lingüisticamente. Formulações estrangeiras de terminologias teológicas e/ou de modelos estratégicos devem ser submetidos e avaliados pelos que são de dentro da cultura, logo nos primeiros estágios dos empreendimentos missionários e eclesiais. Construções teóricas externas ao contexto podem e devem interagir com a igreja e ajudá-la a entender sua caminhada autóctone, mas isto deve ser colocado em prática de forma espontânea e natural.

O contexto no qual uma igreja autóctone se desenvolve, bem como seus participantes, são os agentes legítimos e últimos de um processo de autoctonização da igreja. É por isso que deve haver uma contínua correlação contextualizadora entre linguagem e métodos empregados pelos ministérios e empreendimentos missionários da igreja. A linguagem precisa ser mantida simples e compreensiva. O povo deve compartilhar os conteúdos bíblicos da fé nas suas próprias formas lingüísticas, desenhando uma identidade cristã que construa canais de comunicação relevante do evangelho. Experiências cristãs pessoais e comunitárias precisam ser valorizadas e encorajadas, o que significará permitir que as pessoas ponham suas experiências em palavras através de testemunho público e pensamentos compartilhados em grupos maiores ou menores. Os métodos precisam ser contextuais. A igreja precisa identificar-se com o contexto se quiser gerar métodos próprios da terra.
A
terceira lição refere-se à questão da relevância cultural, espiritual e emocional. Deve-se aprender com o pentecostalismo clássico que,
no contexto latino-americano, notavelmente no Brasil, não é suficiente que a proclamação do evangelho e o ministério da igreja sejam socialmente relevantes. Mensagem e ministério precisam também ser culturalmente, espiritualmente e emocionalmente adaptadas. Esta é a maneira básica através da qual um grupo cristão pode tornar-se integralmente relevante a qualquer dado contexto sócio-cultural latino-americano. Por exemplo, por que razão se pode encontrar numa mesma favela do Rio de Janeiro duas pequenas igrejas diferentes: uma está quase sempre vazia, e a outra -– geralmente pentecostal -– está cheia de gente oriunda do próprio contexto. A explicação mais freqüente e apressada é que a igrejinha pentecostal na favela estaria cheia porque ajuda a substanciar e nutrir a alienação já existente dos seus participantes, enquanto a primeira sofre as conseqüências de ser uma igreja “consciente”, e, portanto, não atraente. A meu ver, contudo, a resposta não está nos níveis de consciência ou inconsciência oferecidos, mas sim nos diferentes níveis de relevância que as duas igrejas representam, não para si mesmas, mas para o povo.

Tornando-se cultural, espiritual e emocionalmente adaptada e, desta forma, relevante para um dado contexto sócio-cultural, a igreja autóctone, por um processo evolutivo, nutre seu total senso de identidade e abre avenidas para que o evangelho seja entendido e abraçado por outras pessoas daquele mesmo ou de outros contextos. Para responder às necessidades culturais, emocionais e espirituais do povo, a igreja precisa ter um claro entendimento de realidades locais. A teologia e prática de missão da igreja precisam gerar uma forma autóctone de tocar o coração do povo. Pacotes teológicos não fazem sentido algum se não tocam o coração das pessoas. Deve haver espaços criativos e generosos para que as pessoas expressem seus conteúdos e experiências da fé de maneira que possam consolidar, no contexto da comunidade, suas convicções cristãs em termos culturais, espirituais e emocionais.
A
quarta lição nos fala sobre a necessária conexão da igreja com as raízes sócio-culturais do nosso povo. A prática missiológica pentecostal clássica nos lembra que
conexão com o povo, definitivamente não em termos discursivos, torna a igreja capaz de proclamar e vivenciar a espécie de mensagem do evangelho que se conecta ao povo brasileiro e que ressoa relevantemente em seu intelecto, emoção, cultura e contextos demandantes. Um contraste a esta prática ocorreu, por exemplo, durante o intenso processo de urbanização ocorrido no Brasil entre as décadas de 30 e 70, quando muitos grupos religiosos procuraram responder ao novo ambiente econômico e cultural. Neste período, o catolicismo romano era um dos grupos cristãos cuja presença se pretendia forte tanto nas áreas rurais como urbanas. Entretanto, a sensibilidade da Igreja Católica tornou-se gradualmente fraca e irrelevante em relação ao povo que migrou para as cidades sem abandonar sua cultura rural, mas que tentou absorver uma mentalidade urbana. Esta penosa aculturação, ou seja, uma verdadeira
ruralização do urbano, trouxe muitas implicações sócio-econômicas, culturais e mesmo espirituais aos indivíduos e famílias. Conseqüentemente, embora as muitas tentativas de manter-se em estreito relacionamento com o pobre urbano e o oprimido, e mesmo tornando-se um dos canais dos seus clamores por justiça social, a Igreja Católica Romana não foi capaz de tornar-se totalmente relevante a eles. Pelo contrário, distanciou-se das lutas do povo causadas pelos seus sofrimentos concretos gerados através dos esforços contínuos por ajustarem-se à cidade. Esta gradual desconexão do catolicismo em relação aos que buscavam sobreviver culturalmente acabou por fazer com que as pessoas procurassem por novas opções em termos de expressão religiosa e comunitária. Com isso, o povo passou a buscar por aderências que lhes oferecessem formas e significados culturais mais relevantes e aplicáveis para a vida cotidiana, por senso de pertencimento e por conforto emocional e espiritual em meio ao sofrimento, a opressão e o abandono.

No pentecostalismo clássico incorporado pelas ADs, contudo, de um modo geral a igreja e seus membros não se desconectam de suas raízes ambientais e culturais. Muito embora possam eventualmente conquistar um estilo vida sócio-econômico mais privilegiado, os participantes mantêm uma conexão com sua herança e identidade culturais, e, constantemente, trazem à mente quem são e de onde vieram. Esta continua conexão habilita os membros da igreja a desenvolver uma abordagem natural e intuitiva em relação aos seus amigos e relacionados, no que tange a comunicar o evangelho de maneira compreensiva e pertinente.
A
quinta lição missiológica – e, a meu ver, a mais contundente -- é que a igreja precisa ser o lugar onde o pobre se sente em casa. A experiência do pentecostalismo clássico no Brasil nos ensina que
a pobreza não pode ser, de forma alguma, ignorada ou negligenciada pela vida e missão da igreja. É claro que a comunidade da fé é para todos os seres humanos — sem distinção de raça, cor, gênero ou classe social —, como também é para o ser humano como um todo. Contudo, a igreja é a comunidade que também tem uma capacidade distinta e especial de viver junto ao pobre. Afinal, a menos que a igreja tenha compaixão pelo pobre, a partir da qual a comunidade deve ser construída, ela não refletirá a integralidade do amor e da misericórdia de Deus. Além disso, a maneira pela qual o pentecostalismo clássico abraça uma fé evangelística pelo pobre, nos ensina que nenhuma igreja deveria esquecer o poder transformador de Deus na vida de indivíduos em na sociedade.

Uma igreja autóctone deve ser capaz de tomar a iniciativa de dar respostas relevantes às necessidades concretas daqueles que enfrentam lutas econômicas e sociais. É por esta razão que a igreja precisa repensar o conceito de “opção preferencial pelo pobre” para tornar-se igreja do pobre. Isto exigirá que se experimente uma verdadeira conversão ao pobre. Para isso, é necessário um entendimento
in loco da realidade do pobre. Em outras palavras, a igreja não pode simplesmente ir aonde o pobre vive, mas sim participar de sua realidade, estabelecer-se, servir e crescer em contextos de pobreza e opressão. Na sua vida e missão diária, a igreja precisa abordar a realidade de vida daqueles que sofrem, interagindo e construindo suas ações missionárias e conteúdos sobre as preocupações e necessidades do povo, ao invés de cumprir uma pesada agenda institucional. Transformação social precisa ser o resultado direto da presença e compaixão qualitativas pelo pobre. A igreja precisa ser ajustada às crescentes demandas das massas de pobres migrantes que procuram por refúgio fraternal que lhes dê redes de segurança e solidariedade, e que os ajude a reorganizar a vida e lidar com a pobreza. Precisa tornar-se catalítica por mudanças. Como agente de mudança, ela precisa ser capaz de tomar a iniciativa de prover respostas relevantes e efetivas às necessidades daqueles que enfrentam lutas econômicas e sociais. A comunidade da fé precisa encorajar e ser instrumento no que tange a ajudar seus aderentes a romper com o ciclo de pobreza que caracterizou suas vidas até a conversão ao senhorio de Cristo.
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LEGENDA:
Autóctone -- Próprio da terra, enraizado na cultura por pertencer a ela, natural do lugar, proveniente ou aculturado às raças que ali habitam.
Clericalismo -- Termo surgido no meio católico romano referindo-se à excessiva autoridade do clero (padres e sacerdotes), mas que ganhou aplicabilidade analógica entre as igrejas protestantes (pastores ou ministros ordenados). Denota elitismo, influência, poder ou exclusividade por parte do clero no exercício ministerial da Igreja, gerando o cerceamento da prática integral do "sacerdócio universal de todos os crentes", notadamente no que tange às iniciativas dos assim chamados de "leigos".
Laicato -- O mesmo que "leigos", i.e., cristãos não-profissionais ou que não pertencem a alguma ordem religiosa, denotando a distância e distinção existente em relação a aqueles que possuem treinamento e ordenação. Termo controverso no seu uso e aplicação, apropriadamente e frenqüentemente substituído pela expressão "Povo de Deus".
(Primeira foto acima: templo da Assembléia de Deus, Ipiranga, São Paulo, Capital)Copyright © 2005 Luís Wesley de Souza
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